História do Movimento


Apresentação

O Movimento Católico Internacional ‘Nós Somos Igreja’ que pretende reflectir acerca de reformas na Igreja, consideradas pelos seus membros como muito importantes, sobretudo a nível de organização e modo de funcionamento, tem vindo a espalhar-se por vários países do mundo e a criar canais de comunicação com outros grupos e associações. Para tal utiliza quer a internet quer o correio electrónico como meio rápido e prático de trocar informações e experiências.

Em Portugal as pessoas que estão interessadas neste movimento têm reunido com bastante regularidade e têm elaborado e divulgado diversos documentos. Além disso, encontram-se em ligação permanente com os grupos existentes noutros países. O Centro de Reflexão Cristã tem continuado a dar o apoio logístico ao Movimento o qual não pretende constituir-se em associação formal.

Desde que se constitui em inícios de 1997, em Portugal, o Movimento começou por divulgar a Petição do Povo de Deus, e recolher assinaturas para a mesma. Esta Petição incide sobre 5 pontos, a que aspiramos, a saber:
  1. Uma Igreja fraterna;
  2. Uma Igreja com uma nova atitude face às mulheres;
  3. Uma Igreja onde os ministérios ordenados sejam reequacionados;
  4. Uma Igreja que valorize a sexualidade, elemento constitutivo do ser humano, criado por Deus;
  5. Uma Igreja empenhada nos direitos humanos, que valorize questões de ordem ética e moral.
As assinaturas recolhidas em muitos países do mundo — cerca de 2 milhões — foram entregues na Santa Sé por ocasião de uma peregrinação a Roma, ocorrida em 1997. Apesar de a organização internacional ter escrito com largos meses de antecedência a pedir uma audiência ao Papa ou a quem este indicasse, nunca foi recebida qualquer resposta.

A nível nacional, a secção portuguesa tomou posição sobre documentos emanados da Santa Sé, ou sobre acontecimentos no nosso país, e tomou sempre a iniciativa de enviar essas tomadas de posição aos bispos portugueses, a título individual, assim como à Conferência Episcopal. É de justiça assinalar que alguns bispos nos têm recebido e ouvido, manifestando até simpatia e empatia com muitas das nossas preocupações. Contudo, apenas de forma informal recebemos qualquer reacção por parte do episcopado a essas tomadas de posição. Lamentamos que não esteja instituída na Igreja Católica portuguesa a cultura do diálogo e do debate de ideias.

A Participação dos Fiéis

Foi sempre dada ampla divulgação junto dos meios de comunicação social a todas estas iniciativas, e da parte desses meios o Movimento tem recebido toda a colaboração.

Foi o caso com a «Instrução sobre Algumas questões acerca da colaboração dos fiéis leigos com o ministério dos sacerdotes», assinada pelos responsáveis de oito dicastérios do Vaticano. Esta Instrução foi objecto de fundadas críticas, até mesmo por parte dos membros do colégio episcopal católico. Em 14 de Dezembro de 1997 o Movimento Nós Somos Igreja de Portugal distribuiu a seguinte posição:
A ‘Instrução sobre alguns aspectos da colaboração dos fiéis leigos no ministério dos padres’ divulgada a 13 de Novembro de 1997 pelo Vaticano motivou a mais viva consternação nos católicos portugueses que se reconhecem no Movimento Internacional Nós Somos Igreja. O Movimento quer tornar pública a sua enorme preocupação perante o significado deste documento e exprimir solidariedade fraterna a quantos — leigos, padres e bispos, sem esquecer todas e todos os que foram chamados à vida consagrada — constróem diariamente novas formas de partilha de responsabilidade na Igreja portuguesa, tornando-a sinal visível de comunhão para a sociedade em que vivemos. Na verdade, como católicos adultos que somos, consideramos que é incompreensível e inaceitável, naquele documento:
  1. O silenciar de toda a doutrina construída a partir do Concílio Vaticano II.
  2. O cavar de um fosso ainda maior entre leigos e clero.
  3. A acusação de que o decréscimo de vocações possa ter origem na maior participação dos leitos na orientação da vida comunitária.
  4. A visão redutora do papel dos leigos como simples consultores ou meros colaboradores supletivos dos seus pastores.
  5. O medo de reflectir à luz da Palavra e da Tradição os desafios que a vida social moderna coloca às formas históricas de relação entre ministros ordenados e leigos.
Esta Instrução romana transformou o dia 13.11.1997 num dia sombrio para todos os católicos por pretender abafar o Espírito que sopra na Igreja pelo recurso à imposição disciplinar. Lembramos, a propósito, os tempos em que a leitura da Bíblia estava vedada aos leigos; lembramos outros tempos em que a disciplina só permitia o uso do latim como única língua própria à celebração eucarística. Ao lembrarmos esses tempos cremos recordar como, na fidelidade ao Espírito, a Igreja soube alterar a sua disciplina interna para melhor responder à sua condição de serva da humanidade e à sua missão de anunciar o mistério de Jesus Cristo. Neste Advento de 1997 queremos afirmar, com todos os que na Igreja portuguesa constróem práticas inovadoras de participação e coresponsabilização na comunidade, a nossa certeza de que, para além de todas as vicissitudes, o Espírito de Deus nos conduzirá a dias luminosos de renovação da Sua Igreja.

Lisboa, 14 de Dezembro 1997.

Um Encontro Internacional

Entretanto, em Frankfurt, na Alemanha, reuniu o Movimento Internacional, de 7 a 10 de Março de 1998. Por Portugal participaram Mariana Mendes Pereira e Vítor Moreira que partilharam com os restantes participantes inquietudes, expectativas e esperanças e que nos trouxeram notícias do que se estava a passar noutros pontos do mundo. Nesse Encontro as/os participantes desenharam alguns dos possíveis objectivos do Movimento como sendo, sem que a ordem tenha qualquer significado:
Uma das consequências desta participação foi também a criação da página em português no site do Movimento Internacional.

Matrimónio e Ordenação

Em Março de 1998, também, a opinião pública portuguesa tomou conhecimento do caso do Padre Carlos Costa, pároco de Pedrogão Grande, a quem a Bispo de Coimbra suspendeu do seu ministério, alegando que o padre Carlos mantinha uma relação conjugal com uma mulher que era mãe de sua filha de oito anos. Sendo extremamente apreciado por todas as comunidades onde exercia, esta situação veio mais uma vez questionar a disciplina obsoleta da Igreja relativa ao celibato compulsivo daqueles que recebem o sacramento da Ordem. O Movimento ‘Nós Somos Igreja’ elaborou um comunicado com data de 27 de Março, que distribuiu aos meios de comunicação social, cujo teor foi o seguinte:
O Movimento Nós Somos Igreja, através do seu núcleo central sediado em Lisboa, não quis deixar de tornar pública a sua posição em relação ao caso que opõe o Bispo de Coimbra ao Padre Carlos Costa, pároco de Pedrogão Grande. Não nos interessa relatar o caso em si, bastante divulgado pela comunicação social, mas mostrar o que, quanto a nós, está em causa e merece uma reflexão. O caso do Padre Carlos Costa é contemplado no ponto 3b) da Petição do Povo de Deus do Movimento Nós Somos Igreja, que diz o seguinte: «nem a Bíblia nem os dogmas estabelecem uma relação compulsiva entre alguns ministérios ordenados e celibato pelo que é necessário repensá-la» e no ponto 4 c) cujo texto é: «a reconciliação com todos os que estão em situação de exclusão /por exemplo, divorciados e recasados, sacerdotes casados, teólogos dissidentes)». Quanto ao primeiro ponto, sabemos da história da Igreja e da Teologia, que o celibato é uma pura medida disciplinar, e não uma verdade da doutrina, dogmática e irrevogável. Foi primeiro instituído no s. IV (300-303?) no Concílio Regional de Elvira (nos arredores de Granada, em Espanha) e o texto da sua instituição é o cânon 33 e diz o seguinte: «Foi decidido impor a seguinte interdição absoluta aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, assim como aos clérigos que asseguram o ministério: abster-se-ão das suas esposas e não gerarão filhos, quem o faça, será banido da ordem dos clérigos.» Mas o que é curioso é que um cânon anterior, o 27, diz: «Um bispo, ou qualquer outro clérigo, só terá consigo a sua irmã ou a sua filha se ela fôr consagrada a Deus; foi decidido que, de modo nenhum, terá consigo uma estranha.» A confusão não pode ser maior. Primeiro diz-se que um clérigo só poderá ter consigo uma irmã ou uma filha (para ter consigo uma filha terá que tê-la gerado com uma mulher), e logo pouco depois diz-se que todo o clérigo se deve abster de ter relações com a sua esposa e não poderá, portanto, gerar filhos. Não se entende o que é que, para os canonistas de Elvira e para toda a Igreja hierárquica posterior, até aos nossos dias, está em causa e é importante: é o celibato ou é a castidade? Parece que os clérigos poderão ter esposa, portanto casar, tendo é que abster-se da relação conjugal. Que sentido faz tudo isto, extremamente contraditório?

Esta disciplina foi-se estendendo à Igreja a partir do s. XI, e ainda hoje não abrange os clérigos da Igreja latina do oriente, o que mostra o seu relativismo.

Actualmente, e tendo em vista o caso do Padre Carlos Costa, a quem o Bispo teria dito, quando ele lhe comunicou que ia ser pai: «Assuma as suas responsabilidades», parece que o que é importante é o padre abster-se da «formalidade» do casamento (mas o matrimónio é, para a Igreja, uma formalidade ou um sacramento?), podendo ter filhos fora dele. Há maior inconsequência e hipocrisia?

Literalmente o caso do Padre Carlos Costa não está contemplado no ponto 4 c) da Petição, mas está-o de facto, visto que não é casado, mas foi colocado numa situação de exclusão, que esperamos e desejamos, no espírito do evangelho que nos anima, que não seja para durar, para bem dele, da sua filha e da mãe dela, das comunidades que pastoreava e cuja fé é posta à prova, e da Igreja em geral, que só ganha com gestos de comunhão e não de exclusão, de fraternidade e pacificação. Com data de 22 de Abril, o Movimento dirigiu igualmente uma carta a cada um dos bispos portugueses reunidos em Conferência Episcopal tendo em vista a situação quer do Padre Carlos Costa quer do Padre Frederico Cunha, o qual se evadiu para o Brasil, fugindo da pena a que tinha sido condenado. À mesma não foi dada qualquer resposta formal. Eis o teor dessa carta:
«Gostaríamos de aproveitar a vossa reunião plenária da Conferência Episcopal para convosco partilharmos algumas das preocupações do Movimento Nós Somos Igreja, nomeadamente no que diz respeito à situação de castidade e celibato dos padres, particularmente a partir da situação pública dos Padres Frederico Cunha e Carlos Costa. Como consta do documento inicial do nosso Movimento, a Petição do Povo de Deus, pensamos que a questão do celibato não é essencial no ministério presbiteral e resulta de circunstâncias históricas quanto a nós ultrapassadas. Apesar desta posição de princípio e nos casos concretos acima mencionados consideramos que o tratamento dos dois casos foi escandalosamente desigual, tendo-se quase absolvido a pedofilia comprovada do Padre Frederico, nomeadamente pelas declarações de vários Bispos desautorizando os Tribunais portugueses e justificando a fuga da prisão e por outro lado, a saída forçada do Padre Carlos da sua Paróquia de Pedrogão Grande onde tinha o apoio de praticamente toda a comunidade cristã de três paróquias.

Estes casos concretos levam-nos a considerar que o problema da castidade e do celibato são questões extremamente actuais perante as quais não se pode ter dois pesos e duas medidas, assim como não se pode ignorar os problemas fingindo que eles não existem na nossa sociedade e na nossa Igreja. Não se trata apenas da questão do celibato que se coloca apenas no caso do Padre Carlos mas particularmente choca-nos não termos visto uma condenação clara do crime de pedofilia que se coloca no caso do Padre Frederico independentemente de ele ser ou não culpado de homicídio. Estas questões caem no âmbito da reflexão sobre Direitos Humanos, e do seu usufruir, que os Senhores Bispos se propõem fazer, em boa hora.
Terão certamente presente que, para que a palavra da Igreja seja credível ao mundo, a nossa Igreja, a que por graça pertencemos, também terá que respeitar os direitos humanos dos seus próprios membros. Contamos ainda que não irão esquecer outros problemas desta vasta área nomeadamente as violações dos Direitos das Mulheres e das Crianças tantas vezes sujeitas a violência, na família, na sociedade e na própria Igreja. Aguardando as vossas notícias, subscrevemo-nos fraternalmente em Nosso Senhor Jesus Cristo.»

Direitos das Mulheres

De assinalar que a Carta Pastoral intitulada «No 50º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos», da Conferência Episcopal Portuguesa, com data de 1 de Dezembro de 1998, referem-se entre os aspectos negativos e motivo de grande preocupação: «os inúmeros casos de violência de que são vítimas as mulheres, tanto no seio da família como nos lugares de trabalho e ainda a exploração degradante a que são sujeitas, tanto pela prostituição, como por diversas formas de publicidade». Entretanto, D. José Policarpo, entretanto já nomeado para suceder a D. António Ribeiro, Cardeal Patriarca de Lisboa (que faleceu em 24 de Março de 1998), recebeu uma delegação do Movimento e houve oportunidade para um diálogo que se deseja proveitoso.

Contudo, face a uma entrevista do Patriarca, publicada em 12 e 13 de Abril, no «Diário de Notícias», em que este afirmou que o «sacerdócio das mulheres não pode ser reivindicação feminista», Teresa Martinho Toldy, doutorada em Teologia e membro do Movimento, escreveu um interessante artigo publicado também naquele jornal em 14 de Maio, em que anota, nomeadamente «como apresentar com credibilidade a pessoa de Jesus Cristo, que veio dizer que Deus não exclui ninguém, quando, em questões concretas da prática da Igreja, se dá uma imagem dele como alguém que, pelos condicionalismos próprios à sua condição humana (Jesus, para ser humano, tinha que ser homem ou mulher, evidentemente), fundamenta exclusões? Afinal, o Deus feito humano não foi uma aproximação à humanidade, mas sim o fundamento para exclusões?»

Perante o referendo realizado em 28 de Junho, sobre a despenalização do aborto nas primeiras 10 semanas de gravidez, o Núcleo Central do Movimento distribuiu a seguinte posição em 23 de Junho:
A Secção Portuguesa do Movimento Internacional Nós Somos Igreja apela para que, na campanha para o referendo do dia 28 de Junho, as várias partes envolvidas em debate salvaguardem o respeito devido às diversas opiniões numa sociedade democrática como é a nossa. Desejaríamos ainda um debate em que as várias posições se manifestassem com a maior clareza possível, de forma a contribuir para aumentar na sociedade portuguesa as oportunidades para o exercício do pluralismo e, simultaneamente, para o desenvolvimento do hábito de argumentar solidamente. Como cristãos, gostaríamos ainda de ver as várias organizações católicas empenhadas no debate usarem da maior compreensão possível para as pessoas concretas, envolvidas em situações dolorosíssimas, para as quais apelamos à prática da misericórdia de Jesus para com todos. Neste sentido, parece-nos mais útil uma argumentação positiva e não uma tendência para recriminações, senão mesmo condenações, de pessoas em situação de fragilidade extrema. Recorde-se ainda a necessidade de nos empenharmos todos no reforço de medidas que previnam situações extremas, como é a do aborto, nomeadamente, o incremento de uma saudável educação sexual e o conhecimento e acesso a meios de planeamento familiar que contribuam para diminuir o recurso a soluções dolorosas para todos os envolvidos. A insistência no valor da vida deverá ser alargada a todas as situações, portanto, também a todas aquelas em que a vida de crianças já nascidas se vê ameaçada ou coarctada definitivamente pela fome, a guerra, a pobreza extrema, resultantes de estruturas sociais injustas, na denúncia e no combate das quais a Igreja deverá empenhar-se cada vez mais intransigentemente.

O mesmo se diga relativamente à situação de milhões de mulheres que, juntamente com os seus filhos, vêem a sua existência ameaçada, quer pelas referidas injustiças sócio-económicas, quer por uma visão patriarcal que tende a relegá-las para segundo plano, mesmo na discussão das questões que lhes dizem directamente respeito. Lembra-se ainda a necessidade de valorizar a consciência como instância última de decisão, na abertura ao bem-comum, passando a mesma pelo reconhecimento do estatuto de maioridade, quer aos crentes, quer aos cidadãos, em geral. Cremos na possibilidade e na necessidade da conversão ao respeito pela capacidade de decisão pessoal de cada um, assim como a uma visão da sociedade e das suas leis liberta de desejos de tutela, verdadeiramente positiva, na senda do reconhecimento pela autonomia do temporal, declarado expressamente pelo Concílio Vaticano II.

A Defesa da Fé

Em 29 de Junho de 1998, o Papa João Paulo II emitiu um documento intitulado «Em defesa da Fé» contra «os erros vindos de alguns fiéis, sobretudo daqueles que se entregam ao estudo das disciplinas da sagrada teologia.» Segundo o texto aqueles católicos que querem um debate aprofundado acerca da ordenação das mulheres, a canonização dos santos e a validade do sacramento da Ordem na Igreja Anglicana, estão a pôr em causa ‘os ensinamentos definitivos da igreja’. Sem, aparentemente, se aperceber da enorme contradição entre estes dois actos, logo em 1 de Julho, o Papa João Paulo II anunciou que o tema do próximo Dia Mundial da Paz seria os direitos humanos, em comemoração do 50º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos e que iria preparar uma mensagem com o título «O respeito pelos Direitos Humanos é o segredo de uma paz verdadeira Paz».

Os meios de comunicação social portugueses deram bastante atenção ao documento «Em defesa da fé» e Maria João Sande Lemos, do Núcleo Central do Movimento, foi convidada a dar um depoimento ao Diário de Notícias, publicado em 8 de Julho de 1998, no qual afirmou o seguinte:
A título pessoal e também como membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja, fiquei muito consternada ao verificar que a corrente mais surda ao diálogo e mais autoritária e autocrática do Vaticano emitiu este documento, que ao contrário do seu título em nada vem ‘defender a fé’. A defesa da fé faz-se no aprofundamento da mensagem evangélica, a qual foi confirmada de forma admirável por ocasião do Concílio Vaticano II, valorizando a riqueza da diversidade da criação de Deus, a participação responsável e empenhada dos cristãos na vida quotidiana da instituição Igreja, o diálogo inter-religioso, o reconhecimento da intrínseca dignidade da pessoa humana, independentemente de ter nascido mulher ou homem. Este documento vai ao arrepio desta caminhada do Povo de Deus e demonstra um preocupante temor perante a reflexão e estudo dos teólogos que a história da Igreja nos demonstra terem tido um papel primordial. Persistir no erro histórico de excluir as mulheres dos ministérios ordenados pelo facto de serem mulheres, as quais, como a fé nos ensina, são criadas por Deus, à Sua Imagem e Semelhança, vai com certeza levar a que o futuro sucessor de Pedro nos venha pedir perdão, como João Paulo II já tem feito em muitas ocasiões sobre várias matérias.
Em Setembro de 1998 o Núcleo Central do Movimento divulgou entre os membros diocesanos do Movimento um texto preparado pelo Movimento Internacional e adoptado pelos núcleos de muitos países, incluindo Portugal — trata-se de uma reflexão intitulada «Um Papa para os Tempos Vindouros» em que se propõe o tipo de pessoa que se deseja que o sopro do Espírito Santo coloque na cadeira de Pedro quando o Papa João Paulo II for chamado para a eternidade. Na diocese de Lisboa, o mesmo foi enviado ao Patriarca mas até à data ainda não foi obtida qualquer reacção ao mesmo documentos. É este o texto:
«É este o tempo favorável» (2 Cor.6) para os Católicos do mundo inteiro reflectirem acerca do tipo de liderança de que precisamos para o novo milénio — e mesmo reflectirem acerca de que modelo de Igreja se torna necessário nesse novo milénio. O Concílio Vaticano II (1962-65) convidou-nos a todos para ler os sinais dos tempos à luz dos Evangelhos. Apelou para que a nossa comunidade de fé estivesse aberta a uma permanente renovação. Temos tentado ser fiéis a esse chamamento ao pensar a vida da nossa igreja e a nossa necessidade de termos um Bispo de Roma que possa liderar a nossa comunidade de fé num ‘ágape universal’ ou assembleia de caridade. O milénio que agora se encerra foi um tempo de divisão entre os Cristãos. Temos esperança que o terceiro milénio venha a ser um tempo de reconciliação e de unidade. Neste espírito, o Papa João Paulo II convidou todos os Cristãos a reflectir acerca do futuro do Papado «… para que possamos procurar — e fazê-lo, obviamente, em conjunto — as formas através das quais este ministério (de Pedro) possa realizar o serviço do amor reconhecido como tal por todos … encontrar uma forma de exercer o primado o qual, embora não renunciando ao essencial da sua missão, esteja contudo aberto a uma nova situação». (Ut Unum Sint, #95). Simultaneamente, o Conselho Mundial das Igrejas apela para que todas as igrejas cristãs se comprometam, no ano 2000, a iniciar a preparação de um Concílio Cristão Universal. Juntamos as nossas vozes a estes apelos, e declaramos que estamos prontos a renovar a nossa comunidade de fé à luz dos sinais dos tempos e prontos a dialogar e a trabalhar com outras igrejas, na base da igualdade.
A fim de que estes sonhos possam ser realizados, oferecemos as nossas reflexões acerca das qualidades que os tempos actuais exigem ao próximo Bispo de Roma. Partilhamos os nossos pensamentos com o mesmo espírito da mulher do Evangelho que misturava fermento com farinha a fim de que o seu pão pudesse multiplicar-se e alimentar uma comunidade. Eis o nosso «fermento».

Um Modelo de Igreja para os nossos Tempos: Sempre Antigo e Sempre Novo. A fim de podermos construir uma Igreja vibrante no novo milénio precisamos de, mais uma vez, ouvir Jesus e os seus primeiros discípulos que pregaram a igualdade de todas as pessoas (Mateus 23; 11-12; Lucas 24-26; Gal. 3, 28).

Necessitamos de construir estruturas na nossa Igreja que possam reflectir essa igualdade a fim de podermos viver, rezar e servir a todos numa «igualdade dos discípulos». Só assim estaremos a seguir o exemplo de Jesus que envia o Espírito não a um pequeno grupo mas a toda a comunidade de fé. Só assim estaremos a cumprir o ensinamento do Concílio Vaticano II o qual nos reconhece a todos como sendo Povo de Deus, co-responsáveis pela tomada de decisão na vida da nossa Igreja. Necessitamos de restaurar uma Igreja que valoriza o diálogo e justiça na sua vida interior assim como na sua atitude face ao mundo. Necessitamos de re-estabelecer uma Igreja que respeite e que celebre a nossa diversidade universal, uma Igreja na qual haja liberdade de viver a nossa fé de formas diferentes em culturas diferentes. Necessitamos de fazer ressurgir uma Igreja que reconheça a importância das Igrejas locais onde a Palavra seja pregada de forma a que as culturas locais a possam entender. A construção desta Igreja renovada é tarefa do Povo de Deus no seu todo, e não apenas do Bispo de Roma, de outros bispos ou do clero. Começamos por insistir que seja restaurada a prática dos primeiros tempos da história da Igreja no sentido de haver estruturas que permitam ao Povo de Deus poder participar de uma forma concreta na eleição de todos os dirigentes da Igreja. Tal incluiria a eleição do Papa, o Bispo de Roma. Esta recuperação de uma tradição antiga reconheceria a acção do Espírito na comunidade dos fiéis.

O Próximo Bispo de Roma

Receberíamos uma grande ajuda na renovação da nossa Igreja se tivéssemos um chefe que fosse capaz de ler os «sinais dos tempos», em sintonia com o povo, um Bispo de Roma colaborante que possa ouvir, além de pregar, e que possa dialogar, além de ensinar. Precisamos de um chefe que verdadeiramente envolva e consulte o sensus fidelium (o senso dos fiéis).

Necessitamos, sobretudo, de um líder que reconheça o despertar da tomada de consciência por parte das mulheres como um «sinal dos tempos» significativo. As mulheres, que constituem mais de metade da nossa Igreja, estão conscientes da sua dignidade e igualdade, a par com os homens. As mulheres apelam à comunidade de fé a fim de que seja respeitada e concretizada essa igualdade. Precisamos de um Bispo de Roma que respeite as diferenças que há entre nós e que nos desafie a viver os Evangelhos.

Precisamos de um Papa que saiba distinguir entre o seu ministério pastoral como Bispo de Roma e o ministério de Pedro, no qual ele se encontra em diálogo com a Igreja Universal. Como Bispo de Roma e o ministério de Pedro, no qual ele se encontra em diálogo com a Igreja Universal. Como Bispo de Roma, ele serve os fiéis de Roma como qualquer Bispo serve a sua diocese. Reformar-se-ia na idade prevista para todos os bispos. Como presidente do ágape mundial, ele actuaria como um bispo irmão que convida os bispos do mundo a partilharem a liderança com ele e com os outros membros do Povo de Deus que são chamados pelos fiéis. Com esse espírito, ele reformaria a Cúria a fim de que esta possa servir, e não dominar, os outros bispos e a Igreja universal.

Mas, sobretudo, precisamos de um Bispo de Roma e de um Pastor Universal que seja: O que precisamos no novo milénio é de um Bispo de Roma que seja um Pastor Universal.

Outras Intervenções

Também em Setembro de 1998, tendo tomado conhecimento por informação do Movimento Internacional, que todos os bispos europeus tinham recebido de Roma um extenso questionário a que deveriam responder num curto espaço de tempo e que se destinava a preparar o Sínodo dos Bispos Europeus que reúne em Roma no último trimestre de 1999, preparamos um contributo o qual foi enviado a todos os Bispos portugueses. Mais uma vez nenhum acusou a recepção ou procurou qualquer diálogo sobre o conteúdo do mesmo. O questionário abarcava as mais diversas matérias, tais como «O Sínodo para a Europa de hoje», «Igreja, Cultura e Sociedade», «A Igreja como Mistério, Comunhão e Missão», «Mistério e Liturgia na Igreja», «Comunhão e Serviço na Igreja», «Missão e Testemunho da Igreja» e «Jesus Cristo, a Igreja e a Esperança». O contributo do Movimento português foi o seguinte:
Mais do que assinalar pontos particulares a serem repensados, julgamos que seria fundamental investir na reflexão sobre a ‘Eclesiologia’, propriamente dita.

Pensamos ser urgente:
Em suma, reabilitando a autocompreensão das Igrejas apostólicas, encontraríamos as formas adequadas e necessárias dos vários serviços para a edificação de cada comunidade cristã, hoje. Se, por um lado, a fidelidade implica sempre criatividade, (as necessidades não são as mesmas em todos os tempos e lugares), por outro, temos a certeza que é o Espírito, poder criativo e sem medida, que nos conduz (Jo 3,34; 14,26; 16,13; 19,30).
Outra nota com interesse diz respeito a uma sondagem de opinião, realizada, por proposta do Movimento português Nós Somos Igreja, pela Universidade Católica, jornal ‘Público’, Antena 1 e RTP, em que se utilizaram as mesmas perguntas de um inquérito internacional, coordenado pelo padre Andrew Greeley, da Universidade de Chicago e Michael Hout, da Universidade de Berkeley, na Califórnia. Estes estudaram a opinião dos católicos na Alemanha, Espanha, Irlanda, EUA, Itália, Polónia, Filipinas sobre determinadas questões. Segundo o jornalista António Marujo, escrevendo no jornal ‘Público’ de 3 de Outubro de 1998, «Casamento dos padres, ordenação das mulheres, eleição dos bispos pelos fiéis de cada diocese, possibilidade de os leigos acederem a lugares como os de conselheiros do Papa. Para os católicos portugueses e de mais sete países de tradição cristão (alguns com maioria protestante), a Igreja tem mesmo de mudar a sua disciplina e organização interna.» As percentagens obtidas entre os católicos portugueses, praticantes e não praticantes, face às grandes questões colocadas foram as seguintes: 63% considera que o próximo papa deve preocupar-se mais com o mundo e as pessoas; 79% é favorável aos padres casados; 61% é favorável à eleição dos bispos; 79% deseja uma maior participação dos leigos na vida da Igreja; 71% é favorável à ordenação das mulheres e 69% deseja mais mudança na Igreja. Os resultados deste inquérito vêm mais uma vez comprovar que afinal tudo o que desejam os membros do Movimento Nós Somos Igreja é igualmente desejado pela grande maioria dos católicos portugueses e de outros países do mundo.

Queremos ainda aqui assinalar a publicação da tese de doutoramento de Teresa Martinho Toldy, pelas edições Paulinas e felicitar a sua autora. Intitulado «Deus e a Palavra de Deus na Teologia Feminista» este livro, lançado em Novembro, é uma peça muito importante na reflexão teológica portuguesa e o Movimento orgulha-se de contar com a autora entre os seus membros.

No ano de 1999 a reflexão continuou. Nesse ano, o Movimento tomou posição sobre a construção de uma projecta basílica em Fátima, manifestando a sua discordância. Pediu uma audiência ao Bispo de Leiria-Fátima, Serafim Ferreira e Silva, na qual houve oportunidade de expôr as nossas posições. O Bispo e o Reitor do Santuário insistem na decisão, com a qual discordam alguns membros da Conferência Episcopal. Nesse ano também, uma delegação do Movimento participou no Forum de Católicos Europeus que se reuniu em Santa Severa, perto de Roma, entre 4 e 10 de Outubro, por ocasião do Sínodo dos Bispos Europeus. Nesse Fórum foi elaborado um documento intitulado ‘Dar Esperança à Europa’ que foi entregue aos bispos reunidos em sínodo, e que se pode encontrar na íntegra noutra página do nosso site. Os meios de comunicação social prestaram-lhe a maior atenção. O texto foi traduzido para português e distribuído amplamente em Portugal nos sectores ligados à Igreja. Apenas alguns dos bispos que o receberam tiveram a cordialidade de acusar a recepção.

Conferências

Em 1999, também, deslocou-se a Portugal o teólogo brasileiro Leonardo Boff, para proferir conferências. Na Faculdade de Letras de Lisboa falou para um auditório de mais de 400 pessoas e estabeleceu-se um debate muito vivo no final. No ano 2000, a secção portuguesa organizou uma vigília de oração pelo acesso das mulheres ao sacramento da ordem, que se realizou no dia 19 de Fevereiro, na Capela do Rato em Lisboa. Teve a presença de cerca de 60 pessoas. Os meios de comunicação social deram grande cobertura. Noutra página poderá encontrar-se as orações proferidas durante a vigília.

Em 16 de Outubro de 2000, a convite do Movimento, deslocou-se a Portugal a teóloga inglesa Lavinia Byrne, a qual foi obrigada a deixar a ordem religiosa a que pertencia há 35 anos, por se recusar a declarar publicamente que estava de acordo com a proibição do acesso das mulheres ao sacramento da ordem e com a posição oficial acerca da utilização de métodos contraceptivos. Proferiu uma conferência na Faculdade de Letras de Lisboa, intitulada ‘Deus gosta das mulheres? As mulheres na sociedade e na igreja na transição do milénio’. Os meios de comunicação social, mais uma vez, deram a maior cobertura à sua visita. A Revista Máxima, no seu número de Janeiro 2001, inclui uma reportagem sobre a questão das mulheres na Igreja, uma entrevista com Lavinia Byrne e ainda lança às leitoras a seguinte questão: haverá mulheres portuguesas concretas interessadas na ordenação sacerdotal?

Passados quatro anos sobre o lançamento do Movimento em Portugal (Janeiro de 1997) considera-se que as preocupações do Movimento estão a ser integradas nas actividades de outras organizações sendo esse, precisamente, um dos nossos grandes objectivos.


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