O Movimento Católico Internacional ‘Nós Somos Igreja’ que pretende reflectir acerca de reformas na Igreja, consideradas pelos seus membros como muito importantes, sobretudo a nível de organização e modo de funcionamento, tem vindo a espalhar-se por vários países do mundo e a criar canais de comunicação com outros grupos e associações. Para tal utiliza quer a internet quer o correio electrónico como meio rápido e prático de trocar informações e experiências.A ‘Instrução sobre alguns aspectos da colaboração dos fiéis leigos no ministério dos padres’ divulgada a 13 de Novembro de 1997 pelo Vaticano motivou a mais viva consternação nos católicos portugueses que se reconhecem no Movimento Internacional Nós Somos Igreja. O Movimento quer tornar pública a sua enorme preocupação perante o significado deste documento e exprimir solidariedade fraterna a quantos — leigos, padres e bispos, sem esquecer todas e todos os que foram chamados à vida consagrada — constróem diariamente novas formas de partilha de responsabilidade na Igreja portuguesa, tornando-a sinal visível de comunhão para a sociedade em que vivemos. Na verdade, como católicos adultos que somos, consideramos que é incompreensível e inaceitável, naquele documento:Esta Instrução romana transformou o dia 13.11.1997 num dia sombrio para todos os católicos por pretender abafar o Espírito que sopra na Igreja pelo recurso à imposição disciplinar. Lembramos, a propósito, os tempos em que a leitura da Bíblia estava vedada aos leigos; lembramos outros tempos em que a disciplina só permitia o uso do latim como única língua própria à celebração eucarística. Ao lembrarmos esses tempos cremos recordar como, na fidelidade ao Espírito, a Igreja soube alterar a sua disciplina interna para melhor responder à sua condição de serva da humanidade e à sua missão de anunciar o mistério de Jesus Cristo. Neste Advento de 1997 queremos afirmar, com todos os que na Igreja portuguesa constróem práticas inovadoras de participação e coresponsabilização na comunidade, a nossa certeza de que, para além de todas as vicissitudes, o Espírito de Deus nos conduzirá a dias luminosos de renovação da Sua Igreja.
- O silenciar de toda a doutrina construída a partir do Concílio Vaticano II.
- O cavar de um fosso ainda maior entre leigos e clero.
- A acusação de que o decréscimo de vocações possa ter origem na maior participação dos leitos na orientação da vida comunitária.
- A visão redutora do papel dos leigos como simples consultores ou meros colaboradores supletivos dos seus pastores.
- O medo de reflectir à luz da Palavra e da Tradição os desafios que a vida social moderna coloca às formas históricas de relação entre ministros ordenados e leigos.
Lisboa, 14 de Dezembro 1997.
O Movimento Nós Somos Igreja, através do seu núcleo central sediado em Lisboa, não quis deixar de tornar pública a sua posição em relação ao caso que opõe o Bispo de Coimbra ao Padre Carlos Costa, pároco de Pedrogão Grande. Não nos interessa relatar o caso em si, bastante divulgado pela comunicação social, mas mostrar o que, quanto a nós, está em causa e merece uma reflexão. O caso do Padre Carlos Costa é contemplado no ponto 3b) da Petição do Povo de Deus do Movimento Nós Somos Igreja, que diz o seguinte: «nem a Bíblia nem os dogmas estabelecem uma relação compulsiva entre alguns ministérios ordenados e celibato pelo que é necessário repensá-la» e no ponto 4 c) cujo texto é: «a reconciliação com todos os que estão em situação de exclusão /por exemplo, divorciados e recasados, sacerdotes casados, teólogos dissidentes)». Quanto ao primeiro ponto, sabemos da história da Igreja e da Teologia, que o celibato é uma pura medida disciplinar, e não uma verdade da doutrina, dogmática e irrevogável. Foi primeiro instituído no s. IV (300-303?) no Concílio Regional de Elvira (nos arredores de Granada, em Espanha) e o texto da sua instituição é o cânon 33 e diz o seguinte: «Foi decidido impor a seguinte interdição absoluta aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, assim como aos clérigos que asseguram o ministério: abster-se-ão das suas esposas e não gerarão filhos, quem o faça, será banido da ordem dos clérigos.» Mas o que é curioso é que um cânon anterior, o 27, diz: «Um bispo, ou qualquer outro clérigo, só terá consigo a sua irmã ou a sua filha se ela fôr consagrada a Deus; foi decidido que, de modo nenhum, terá consigo uma estranha.» A confusão não pode ser maior. Primeiro diz-se que um clérigo só poderá ter consigo uma irmã ou uma filha (para ter consigo uma filha terá que tê-la gerado com uma mulher), e logo pouco depois diz-se que todo o clérigo se deve abster de ter relações com a sua esposa e não poderá, portanto, gerar filhos. Não se entende o que é que, para os canonistas de Elvira e para toda a Igreja hierárquica posterior, até aos nossos dias, está em causa e é importante: é o celibato ou é a castidade? Parece que os clérigos poderão ter esposa, portanto casar, tendo é que abster-se da relação conjugal. Que sentido faz tudo isto, extremamente contraditório?
«Gostaríamos de aproveitar a vossa reunião plenária da Conferência Episcopal para convosco partilharmos algumas das preocupações do Movimento Nós Somos Igreja, nomeadamente no que diz respeito à situação de castidade e celibato dos padres, particularmente a partir da situação pública dos Padres Frederico Cunha e Carlos Costa. Como consta do documento inicial do nosso Movimento, a Petição do Povo de Deus, pensamos que a questão do celibato não é essencial no ministério presbiteral e resulta de circunstâncias históricas quanto a nós ultrapassadas. Apesar desta posição de princípio e nos casos concretos acima mencionados consideramos que o tratamento dos dois casos foi escandalosamente desigual, tendo-se quase absolvido a pedofilia comprovada do Padre Frederico, nomeadamente pelas declarações de vários Bispos desautorizando os Tribunais portugueses e justificando a fuga da prisão e por outro lado, a saída forçada do Padre Carlos da sua Paróquia de Pedrogão Grande onde tinha o apoio de praticamente toda a comunidade cristã de três paróquias.
Estes casos concretos levam-nos a considerar que o problema da castidade e do celibato são questões extremamente actuais perante as quais não se pode ter dois pesos e duas medidas, assim como não se pode ignorar os problemas fingindo que eles não existem na nossa sociedade e na nossa Igreja. Não se trata apenas da questão do celibato que se coloca apenas no caso do Padre Carlos mas particularmente choca-nos não termos visto uma condenação clara do crime de pedofilia que se coloca no caso do Padre Frederico independentemente de ele ser ou não culpado de homicídio. Estas questões caem no âmbito da reflexão sobre Direitos Humanos, e do seu usufruir, que os Senhores Bispos se propõem fazer, em boa hora.
Terão certamente presente que, para que a palavra da Igreja seja credível ao mundo, a nossa Igreja, a que por graça pertencemos, também terá que respeitar os direitos humanos dos seus próprios membros. Contamos ainda que não irão esquecer outros problemas desta vasta área nomeadamente as violações dos Direitos das Mulheres e das Crianças tantas vezes sujeitas a violência, na família, na sociedade e na própria Igreja. Aguardando as vossas notícias, subscrevemo-nos fraternalmente em Nosso Senhor Jesus Cristo.»
A Secção Portuguesa do Movimento Internacional Nós Somos Igreja apela para que, na campanha para o referendo do dia 28 de Junho, as várias partes envolvidas em debate salvaguardem o respeito devido às diversas opiniões numa sociedade democrática como é a nossa. Desejaríamos ainda um debate em que as várias posições se manifestassem com a maior clareza possível, de forma a contribuir para aumentar na sociedade portuguesa as oportunidades para o exercício do pluralismo e, simultaneamente, para o desenvolvimento do hábito de argumentar solidamente. Como cristãos, gostaríamos ainda de ver as várias organizações católicas empenhadas no debate usarem da maior compreensão possível para as pessoas concretas, envolvidas em situações dolorosíssimas, para as quais apelamos à prática da misericórdia de Jesus para com todos. Neste sentido, parece-nos mais útil uma argumentação positiva e não uma tendência para recriminações, senão mesmo condenações, de pessoas em situação de fragilidade extrema. Recorde-se ainda a necessidade de nos empenharmos todos no reforço de medidas que previnam situações extremas, como é a do aborto, nomeadamente, o incremento de uma saudável educação sexual e o conhecimento e acesso a meios de planeamento familiar que contribuam para diminuir o recurso a soluções dolorosas para todos os envolvidos. A insistência no valor da vida deverá ser alargada a todas as situações, portanto, também a todas aquelas em que a vida de crianças já nascidas se vê ameaçada ou coarctada definitivamente pela fome, a guerra, a pobreza extrema, resultantes de estruturas sociais injustas, na denúncia e no combate das quais a Igreja deverá empenhar-se cada vez mais intransigentemente.
A título pessoal e também como membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja, fiquei muito consternada ao verificar que a corrente mais surda ao diálogo e mais autoritária e autocrática do Vaticano emitiu este documento, que ao contrário do seu título em nada vem ‘defender a fé’. A defesa da fé faz-se no aprofundamento da mensagem evangélica, a qual foi confirmada de forma admirável por ocasião do Concílio Vaticano II, valorizando a riqueza da diversidade da criação de Deus, a participação responsável e empenhada dos cristãos na vida quotidiana da instituição Igreja, o diálogo inter-religioso, o reconhecimento da intrínseca dignidade da pessoa humana, independentemente de ter nascido mulher ou homem. Este documento vai ao arrepio desta caminhada do Povo de Deus e demonstra um preocupante temor perante a reflexão e estudo dos teólogos que a história da Igreja nos demonstra terem tido um papel primordial. Persistir no erro histórico de excluir as mulheres dos ministérios ordenados pelo facto de serem mulheres, as quais, como a fé nos ensina, são criadas por Deus, à Sua Imagem e Semelhança, vai com certeza levar a que o futuro sucessor de Pedro nos venha pedir perdão, como João Paulo II já tem feito em muitas ocasiões sobre várias matérias.Em Setembro de 1998 o Núcleo Central do Movimento divulgou entre os membros diocesanos do Movimento um texto preparado pelo Movimento Internacional e adoptado pelos núcleos de muitos países, incluindo Portugal — trata-se de uma reflexão intitulada «Um Papa para os Tempos Vindouros» em que se propõe o tipo de pessoa que se deseja que o sopro do Espírito Santo coloque na cadeira de Pedro quando o Papa João Paulo II for chamado para a eternidade. Na diocese de Lisboa, o mesmo foi enviado ao Patriarca mas até à data ainda não foi obtida qualquer reacção ao mesmo documentos. É este o texto:
«É este o tempo favorável» (2 Cor.6) para os Católicos do mundo inteiro reflectirem acerca do tipo de liderança de que precisamos para o novo milénio — e mesmo reflectirem acerca de que modelo de Igreja se torna necessário nesse novo milénio. O Concílio Vaticano II (1962-65) convidou-nos a todos para ler os sinais dos tempos à luz dos Evangelhos. Apelou para que a nossa comunidade de fé estivesse aberta a uma permanente renovação. Temos tentado ser fiéis a esse chamamento ao pensar a vida da nossa igreja e a nossa necessidade de termos um Bispo de Roma que possa liderar a nossa comunidade de fé num ‘ágape universal’ ou assembleia de caridade. O milénio que agora se encerra foi um tempo de divisão entre os Cristãos. Temos esperança que o terceiro milénio venha a ser um tempo de reconciliação e de unidade. Neste espírito, o Papa João Paulo II convidou todos os Cristãos a reflectir acerca do futuro do Papado «… para que possamos procurar — e fazê-lo, obviamente, em conjunto — as formas através das quais este ministério (de Pedro) possa realizar o serviço do amor reconhecido como tal por todos … encontrar uma forma de exercer o primado o qual, embora não renunciando ao essencial da sua missão, esteja contudo aberto a uma nova situação». (Ut Unum Sint, #95). Simultaneamente, o Conselho Mundial das Igrejas apela para que todas as igrejas cristãs se comprometam, no ano 2000, a iniciar a preparação de um Concílio Cristão Universal. Juntamos as nossas vozes a estes apelos, e declaramos que estamos prontos a renovar a nossa comunidade de fé à luz dos sinais dos tempos e prontos a dialogar e a trabalhar com outras igrejas, na base da igualdade.A fim de que estes sonhos possam ser realizados, oferecemos as nossas reflexões acerca das qualidades que os tempos actuais exigem ao próximo Bispo de Roma. Partilhamos os nossos pensamentos com o mesmo espírito da mulher do Evangelho que misturava fermento com farinha a fim de que o seu pão pudesse multiplicar-se e alimentar uma comunidade. Eis o nosso «fermento».
Mais do que assinalar pontos particulares a serem repensados, julgamos que seria fundamental investir na reflexão sobre a ‘Eclesiologia’, propriamente dita.Outra nota com interesse diz respeito a uma sondagem de opinião, realizada, por proposta do Movimento português Nós Somos Igreja, pela Universidade Católica, jornal ‘Público’, Antena 1 e RTP, em que se utilizaram as mesmas perguntas de um inquérito internacional, coordenado pelo padre Andrew Greeley, da Universidade de Chicago e Michael Hout, da Universidade de Berkeley, na Califórnia. Estes estudaram a opinião dos católicos na Alemanha, Espanha, Irlanda, EUA, Itália, Polónia, Filipinas sobre determinadas questões. Segundo o jornalista António Marujo, escrevendo no jornal ‘Público’ de 3 de Outubro de 1998, «Casamento dos padres, ordenação das mulheres, eleição dos bispos pelos fiéis de cada diocese, possibilidade de os leigos acederem a lugares como os de conselheiros do Papa. Para os católicos portugueses e de mais sete países de tradição cristão (alguns com maioria protestante), a Igreja tem mesmo de mudar a sua disciplina e organização interna.» As percentagens obtidas entre os católicos portugueses, praticantes e não praticantes, face às grandes questões colocadas foram as seguintes: 63% considera que o próximo papa deve preocupar-se mais com o mundo e as pessoas; 79% é favorável aos padres casados; 61% é favorável à eleição dos bispos; 79% deseja uma maior participação dos leigos na vida da Igreja; 71% é favorável à ordenação das mulheres e 69% deseja mais mudança na Igreja. Os resultados deste inquérito vêm mais uma vez comprovar que afinal tudo o que desejam os membros do Movimento Nós Somos Igreja é igualmente desejado pela grande maioria dos católicos portugueses e de outros países do mundo.
Pensamos ser urgente:
Em suma, reabilitando a autocompreensão das Igrejas apostólicas, encontraríamos as formas adequadas e necessárias dos vários serviços para a edificação de cada comunidade cristã, hoje. Se, por um lado, a fidelidade implica sempre criatividade, (as necessidades não são as mesmas em todos os tempos e lugares), por outro, temos a certeza que é o Espírito, poder criativo e sem medida, que nos conduz (Jo 3,34; 14,26; 16,13; 19,30).
- desenvolver uma eclesiologia que reabilitasse, aceitando vivencialmente e proclamando, o antigo credo baptismal da igualdade (Gal 3, 28-29) porque não fala do futuro escatológico ou do estado celeste, mas do baptismo como inserção no Corpo de Cristo, a Igreja; exprime a esperança da fraternidade que exige ser realizada agora, como modelo, na comunidade;
- desenvolver uma eclesiologia que reabilitasse a Igreja ministerial, onde a palavra-chave fosse diakonia em vez de poder, onde exercer o ministério fizesse parte e fosse expressão do seguimento de Jesus (Ef 4, 11); onde qualquer baptizado(a) pudesse ter acesso à ordenação ministerial para ensinar, santificar e governar na e pela Igreja; onde cada comunidade pudesse gozar do seu direito à celebração da Eucaristia sem as restrições decorrentes dos cânones do Direito Canónico.