“Uma Igreja Mais Inclusiva e Compassiva”
O que o Movimento Internacional Nós Somos Igreja deseja do Encontro Mundial das Famílias em Valência
Comunicado de Imprensa do IMWAC
Roma, 4 de Julho de 2006
Dentro de poucos dias, o Papa Bento XVI estará em Valência para o Quinto Encontro Mundial das Famílias, uma importante ocasião para reflexão e mobilização no mundo católico sobre o tema da vida, dos sentimentos e relações que se desenvolvem na esfera da família e das relações interpessoais em geral. Parece-nos ser este o tema que surge com mais premência em termos de assuntos pastorais e na evangelização da Igreja católica no início deste milénio. À luz deste importante evento, sentimo-nos na necessidade de exprimir as nossas expectativas e pontos de vista entre os nossos irmãos crentes.
Vivemos numa sociedade que já não é guiada por valores cristãos tradicionais, e onde se afirmam novas maneiras de viver em conjunto e ser família. Como adultos, e cidadãos e cristãos responsáveis, devemos exigir leis acerca de questões familiares que tenham como ponto de partida as nossas decisões livres e responsáveis, sempre tendo como referência os direitos humanos, e respeitando outras possibilildades, em vez de tentar impôr a todos aquilo que só é válido para alguns.
Pensamos que, interna e socialmente, aqueles que se ocupam de assuntos pastorais na Igreja têm de ter uma atitude de inclusão e não de exclusão, um modo sempre fraternal de encarar quem sofre, sempre com palavras de amor e compaixão (Lc 6,36), em vez de apresentar regras e preceitos baseados numa lei natural que se apresenta como válida em todo o tempo, mas cuja rigidez, desde há já algum tempo, tem sido posta em causa pelo pensamento teológico e pastoral.
Somos de opinião que a fidelidade ao evangelho exige, acima de tudo, a justiça, a par com a caridade, na atitude em relação aos casais (nas suas diferentes características), na educação dos filhos e filhas, nas relações com os pais e em todos os outros aspectos das relações familiares. Não se podem silenciar, desvalorizar ou negligenciar os preconceitos e todos os tipos de violência que ocorrem em variadas partes do mundo, de muitos modos, por vezes sofisticados; mesmo em países que são considerados como desenvolvidos, contra os mais vulneráveis: crianças, muitas mulheres, idosos e deficientes, homossexuais, mães solteiras e prostitutas. Nem podemos igualmente ignorar a violência que ocorre nas famílias chamadas ‘normais’.
Estamos convencidos que a prioridade que o ensino da Igreja dá aos temas da família, da vida e da procriação tende a relegar para segundo plano o facto de que a supremacia do amor não se exprime apenas na vida familiar ou nas relações interpessoais; pois, como Paulo VI dizia frequentemente, a caridade manifesta-se primeiramente na política, vista como a busca e a gestão do bem comum. Parece-nos que, antes do mais, deveria haver: um empenho na criação de um mundo mais justo e pacífico, sem guerras, nem armas, nem crime organizado, uma relação diferente entre o Norte e o Sul e um acordo entre as religiões sobre uma ética universal e a salvaguarda da criação. Estas parecem-nos ser as prioridades que o evangelho nos exige na defesa da vida, tanto da nossa como da das gerações futuras.
Foi no contexto destas reflexões gerais que o Movimento Internacional Nós Somos Igreja, na sua “Petição do Povo de Deus” em 1995, que juntou dois milhões e meio de assinaturas, levantou algumas questões básicas relativas aos temas do encontro de Valência, questões sobre as quais ainda se espera reformas, mesmo dentro da sua própria Igreja, no espírito do Concílio Ecuménico Vaticano II. Entre estas questões estão: a permissão dos divorciados recasados a receberem a Eucaristia no contexto de uma expressão de fé pessoal e colectiva, o reconhecimento da liberdade de consciência no campo da saúde reprodutiva e a aceitação plena dos métodos contraceptivos como defesa contra a SIDA, o fim de toda a discriminação contra os homossexuais, a participação plena das mulheres no ministério eclesial, o celibato opcional para os padres e o regresso dos padres casados ao serviço da comunidade.
4 de Julho de 2006,
Movimento Internacional Nós Somos Igreja
‘Nós Somos Igreja’ é um movimento internacional, dentro da Igreja católica, que busca a renovação no espírito do Concílio Vaticano II (1962-1965). O ‘Nós Somos Igreja’ iniciou-se na Áustria, em 1995 com um referendo eclesial.
O Movimento Internacional Nós Somos Igreja, fundado em Roma em 1996, está representado em mais de vinte países em todos os continentes e trabalha em rede no mundo inteiro com grupos reformistas de índole semelhante. O ‘Nós Somos Igreja’ representa teologicamente a “voz das pessoas nos bancos da Igreja”, como têm confirmado repetidamente vários estudos feitos por bem conhecidos sociólogos da religião.
[ Enviar este texto ]