“As necessidades de reforma são ainda as mesmas”
Press Release do Movimento Internacional Nós Somos Igreja
no primeiro aniversário do pontificado de Bento XVI (19 de Abril de 2006)




“O primeiro ano de pontificado de Bento XVI não mudou substancialmente a situação problemática na Igreja Católica. As necessidades de reforma são ainda as mesmas”, segundo Christian Weisner, Coordenador do Movimento Internacional Nós Somos Igreja, um movimento reformista à escala mundial, detro da Igreja Católica. “Neste primeiro ano, vimos vários sinais positivos, mas há igualmente grandes défices, que são causa de grande preocupação.”

Rea Howarth, co-directora do Centro Quixote (Hyattsville, Maryland), e porta-voz do Movimento Nós Somos Igreja nos Estados Unidos afirma: “Após ter reflectido sobre o ano que passou, o Movimento Internacional Nós Somos Igreja deseja apresentar a sua análise construtiva do primeiro ano de papado do Papa Bento XVI. Fazemo-lo como comunidade de católicos fiéis, na esperança que estes comentários sejam tomados como crítica construtiva.”

Não pedimos ao Papa Bento XVI que se deixe guiar pelo espírito dos tempos. Mas tem de ser capaz de ouvir, e, no seu pontificado, deve dar e permitir que se dêem respostas sobre as questões prementes na Igreja e na sociedade contemporâneas - sempre dadas com base na Bíblia e no Concílio Vaticano II (1962-65), que ele próprio influenciou consideravelmente enquanto jovem teólogo.

Em face dos desafios que se colocam, os cristãos de todo o mundo esperam por respostas que sejam humanas em questões sobre justiça e paz, diálogo inter-religioso e ecumenismo, a posição das mulheres na Igreja, ética sexual e a falta de padres a nível mundial. De contrário, continuará a dar-se a saída de mulheres, e não só, da Igreja.

O Movimento Nós Somos Igreja acolheu com alegria a nova abertura com que o episcopado discutiu os problemas pastorais da Santa Eucaristia durante o Sínodo dos Bispos em Outubro de 2005. Mas lamentamos profundamente que os bispos apenas tenham falado dos problemas, sem que isso tenha levado a mudanças em concreto nas regras e práticas da Igreja.

O estilo de liderança de Bento XVI é mais consultivo e colegial do que o do seu predecessor. Mas a permanente fixação no cargo e no papel do Papa, bem como na hierarquia da Igreja, não reflecte os ensinamentos de Jesus e não pode ser um modelo para a juventude. Há um grande perigo de se desenvolver um culto de personalidade e um gigantesco espectáculo mediático que teria precedência sobre a experiência da fé.

Não estamos esquecidos, porém, da rigidez de Ratzinger durante mais de 23 anos à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, banindo teólogos críticos, condenando a Teologia da Libertação, formulando uma rígida doutrina sexual, limitando a influência das mulheres na Igreja, bem como as relações ecuménicas com Igrejas Protestantes.

O facto de um dos primeiros documentos publicados no tempo de Bento XVI, a Instrução do Vaticano sobre “Homossexualidade e Ministérios Ordenados”, descriminar homens homossexuais, impedindo-os de se tornarem padres, constitui uma grande decepção para muitos católicos, e não apenas para aqueles que são directamente afectados.

Os comentários recentes de Bento XVI sobre o papel da mulheres na Igreja são simultaneamente encorajadores e desencorajadores, pois foi decisivamente rejeitada a reabertura da questão da ordenação.

Isto aumentará seguramente a falta de padres. Durante os 26 anos do papado de João Paulo II, o número de católicos aumentou 40%, enquanto o número de padres diminuiu 4%. Actualmente, praticamente metade das paróquias e missões Católicas, em todo o mundo, não têm um padre residente (dados do Center for Applied Research on the Apostolate, na Georgetown University, Washington DC).

O Movimento Internacional Nós Somos Igreja acolheu com alegria o encontro do Papa Bento XVI com o teólogo crítico Dr. Hans Küng em Setembro de 2005 em Castel Gandolfo. Mas a carta do Nós Somos Igreja, pedindo ao novo Papa, após a sua eleição, uma audiência pessoal, ainda não teve sequer resposta.

O mundo onde nós vivemos está em perigo. A Igreja tem a capacidade e a responsabilidade de aproveitar os dons de todos os baptizados para trabalhar com as pessoas de todas as tradições de fé, por forma a desencadear uma revolução de paz para o bem de toda a humanidade. Até agora, não vemos nenhuma indicação clara que Bento XVI tenha consciência deste grande desafio. A sua primeira encíclica, “Deus Caritas Est”, embora largamente aplaudida, foi demasiado genérica.

O Papa não pediu a demissão de nenhum bispo ou cardeal que tenha estado ligado ao encobrimento dos crimes sexuais contra crianças e adolescentes, bem como do abuso sexual de mulheres – incluindo freiras – pelo clero. Este é um problema à escala mundial. Bento XVI continua com a sua ordem directa aos bispos de todo o mundo de manter uma política de silêncio e secretismo. Esta própria política é um crime contra os mais fracos e vulneráveis na nossa igreja.

O Movimento Internacional Nós Somos Igreja apresenta estas reflexões na esperança que Bento XVI veja nelas algum reflexo dos dons do Espírito Santo emanando do Povo de Deus. Pedimos-lhe que ponha em marcha uma nova fase na Igreja, reconhecendo que os leigos são o tesouro da Igreja, e não o seu “problema”, e que aqueles de nós que erguem as suas vozes pedindo reforma e renovação são de facto católicos fiéis, dotados de capacidade de reflexão e discernimento e de um amor genuíno por toda a Igreja. Convidamo-lo, de novo, a participar num diálogo verdadeiro.



O Movimento Internacional Nós Somos Igreja – um movimento reformista, de base, na Igreja Católica, de leigos, padres e pessoas com ordens religiosas – nasceu na Áustria e na Alemanha em 1995, tendo-se espalhado por toda a Europa e por todos os continentes. O Nós Somos Igreja mantém-se em contacto com outros movimentos reformistas em todo o mundo. O seu objectivo é manter vivo o processo de reforma na Igreja Católica, iniciado com o Concílio Vaticano II (1962-65), e que em anos recentes estagnou.

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