Comunicado do Movimento Internacional Nós Somos Igreja – Portugal
sobre a Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis



O Movimento Internacional Nós Somos Igreja — Portugal lamenta que, apesar de algumas referências ao valor da Eucaristia enquanto fonte de renovação espiritual e de partilha, a Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, recentemente publicada pelo Papa, reafirme muitas tendências centralistas e ritualistas.

Em primeiro lugar, insiste-se na visão da Eucaristia como "sacrifício" (a palavra aparece quarenta vezes no documento), uma categoria que nos parece completamente desadequada aos dias de hoje e à realidade da ceia partilhada.

Na relação da Eucaristia com restantes sacramentos, são claras as inconsistências. Por exemplo, volta a afirmar-se a bondade do celibato sacerdotal, "bênção enorme para a Igreja", apesar de apenas introduzida no séc X, mesmo em face de uma reconhecida falta de clero. Na relação com o sacramento do matrimónio, insiste-se na posição algo incoerente de convidar as pessoas divorciadas e re-casadas que não tenham conseguido a declaração de nulidade do seu matrimónio (situação que é apresentada como uma "praga do ambiente social contemporâneo") a participar na Eucaristia, proibindo-se-lhes, porém, a comunhão. Na segunda parte da Carta, esta mesma porta é fechada aos cristãos não católicos.

Na segunda parte, apesar de se começar com um apelo à ligação íntima entre a Eucaristia e a beleza, conceito abstracto, intemporal, e imaterial, o que se propõe para as celebrações concretas é uma referência, quase obsessiva, a tudo o que emana da hierarquia e em particular do próprio Papa — dá-se primazia ao canto gregoriano, ao latim (introduzido apenas por Carlos Magno, no séc IX), aos presbíteros e aos bispos, aos textos e orações oficiais, com principal incidência no Catecismo da Igreja Católica e ao seu Compêndio (escrito pelo próprio Bento XVI), ansiando-se por um futuro "Compêndio da Eucaristia" (que provavelmente não demorará a aparecer).

Não nos apercebemos aqui de qualquer espaço para a iniciativa e a criatividade dos fiéis leigos, que, no entanto, se pretendem participantes e não apenas "estranhos ou espectadores mudos". Não vemos igualmente qualquer espaço para todas as manifestações de "beleza" que não provenham de fontes oficiais.

Um ponto a nosso ver positivo deste documento é a afirmação das implicações espirituais e socio-económicas da Eucaristia, enquanto centro de partilha, num contraponto claro às desigualdades causadas pela globalização com base na busca de lucro, que fomenta grandes desequilíbrios de riqueza.

O documento termina com várias referências a Maria, que, já tendo sido chamada "modelo de docilidade" à palavra, é aqui apresentada como virgem imaculada e arca da aliança, num sentido que aponta, infelizmente, para um modelo passivo e obediente da mulher, que não pode ser aceite hoje em dia de modo nenhum.

Assim, parece-nos que, neste como noutros assuntos, se ganharia em ouvir tanto os bispos como os demais fiéis leigos, como foi feito no Concílio Vaticano II, e, em colaboração com eles, encontrar novos caminhos e novas soluções para estas questões. É neste sentido que o Movimento Internacional Nós Somos Igreja trabalha desde a sua fundação.


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