Consistório 2001
Secção Portuguesa do Movimento Internacional ‘Nós Somos Igreja’
a/c Centro de Reflexão Cristã
Rua Castilho, 61, 2o D
Lisboa 1250-068
Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa,
Sabendo que V. Eminência irá participar no Consistório de 21 a 24 de Maio, do
ano de Graça de 2001, com o objectivo de reflectir acerca da Igreja no século XXI,
gostaríamos, em nome do movimento que representamos, partilhar a nossa
perspectiva sobre a situação da Igreja, na certeza que não a ireis ignorar, pois
partilhamos a convicção de que a Boa Nova anunciada por Jesus Cristo nos
Evangelhos – mensagem de amor e de perdão, – é para nós a fonte de água viva.
Pensamos que a nível da Igreja se torna imperioso uma atitude constante de
oração e auto-avaliação, procurando novas formas de comunhão, tendo em vista
promover e potenciar a mensagem cristã.
É assim que pomos à Vossa consideração o seguinte:
Como Povo de Deus:
1. Aspiramos a uma participação activa nas estruturas da Igreja, de forma a que
todos os seus membros possam, na medida das suas capacidades, talentos e
carismas, contribuir para o bem comum. Nomeadamente, consideramos que os
fiéis devem ser consultados sobre a escolha dos seus presbíteros e bispos.
Consideramos igualmente que se deve acabar com práticas persecutórias e
inquisitoriais face à investigação realizada por um crescente corpo de teólogos e
teólogas, qualificado e merecedor do maior respeito e consideração.
2. Consideramos necessário e urgente que se generalizem, em todas as
estruturas da Igreja, actividades de formação permanente, destinadas não só ao
clero como aos leigos/as, consagrados/as ou não, tendo em vista melhorar a
qualidade humana e técnica dos serviços prestados à comunidade. Tal
beneficiaria a vida das paróquias e das várias Instituições ligadas à Igreja, sejam
estas lares de idosos, hospitais, infantários, escolas ou outras estruturas de
solidariedade social, e ainda jornais, rádios, e páginas de internet, de inspiração
cristã.
3. Propomos que no discurso oficial da Igreja, nomeadamente quando os bispos
e os padres se pronunciam em público, nas homilias, comunicados, etc. seja tida
em atenção a forma como se utiliza a linguagem, elemento fundamental de
comunicação entre as pessoas, para que ninguém se sinta excluído/a e
nomeadamente as mulheres, que são pelo menos, metade do Povo de Deus.
4. Desejamos que as estruturas do governo central da Igreja e as hierarquias
diocesanas pratiquem uma política de verdade e de transparência quando
ocorrem situações de escândalo em qualquer comunidade cristã, em vez de
procurar abafar e encobrir os factos.
5. Desejamos uma maior transparência dos procedimentos financeiros aos
vários níveis da Igreja, pois dado que esta é financiada, em grande parte, com o
contributo de todos os fiéis, deve ser dado conhecimento público, de forma
regular, da constituição do seu património, respectiva utilização, assim como da
gestão das receitas e das despesas.
6. Sonhamos com o incremento de novas formas de evangelização que estejam
mais em sintonia com os sinais dos tempos e com as aspirações dos diversos
grupos etários em presença. Formas de apostolado, por exemplo, que possam
passar por um compromisso temporário ao serviço da Igreja (antes de se iniciar
a carreira profissional ou, pelo contrário, na fase da vida quando se atinge a
reforma ou a pré-reforma). Já há bons exemplos em muitos países do mundo, e
também em Portugal, de organizações onde se pratica este tipo de compromisso.
7. Sentimos como imperioso o aprofundamento sistemático do diálogo
ecuménico e do entendimento inter-religioso, não só entre todas as igrejas
cristãs, mas também com as comunidades islâmica, judaica, hindu e outras,
tendo em vista encontrar uma ética global que promova a cultura da paz e o
respeito universal pelos direitos humanos.
8. Desejamos ainda que se aprofunde a reflexão tendo em vista reformular
práticas, regulamentos e discursos que se encontram em contradição com o
espírito e a letra dos Evangelhos, tais como a exclusão das mulheres dos
ministérios ordenados, a imposição de celibato ao clero secular, a distinção
artificiosa entre métodos contraceptivos e a atitude receosa e condenatória face à
sexualidade, elemento constitutivo do ser humano criado por Deus.
9. Queremos que a pastoral da família promova equilibrios entre a mulher e o
marido, a mãe e o pai, a comum responsabilidade face aos filhos e aos pais
idosos, o apoio às famílias monoparentais, o acolhimento às famílias
reconstituídas e a concomitante conciliação entre a vida familiar e a vida
profissional.
Estamos sempre ao dispor de V. Eminência para participar num diálogo
alargado, sobre os pontos acima referidos.
15 de Abril 2001
Domingo de Páscoa, Dia da Ressurreição do Senhor.
Secção Portuguesa do Movimento Internacional Nós Somos Igreja.
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