Conferência Ecuménica Mundial sobre a Ordenação das Mulheres
Vimos, por este meio, proporcionar alguma informação acerca da Conferência
Ecuménica Mundial sobre a Ordenação das Mulheres, que se realizou em Dublin,
na Irlanda, entre 19 de Junho e 1 de Julho de 2001, promovida pela Organização
Mundial pela Ordenação das Mulheres, que integra uma série de movimentos a
favor da reforma da Igreja Católica. O tema era : "Chegou a hora –
Celebrando o chamamento das mulheres a um sacerdócio
renovado na Igreja Católica". Os participantes totalizaram 370, vindos de 26
países, dos quais 15% eram do sexo masculino. Havia cerca de 30 religiosas e
alguns sacerdotes. Estiveram presentes duas portuguesas do Movimento
Internacional ‘Nós Somos Igreja’, Maria João Sande Lemos e Ana Vicente.
As conferências principais, seguidas de debate, foram pronunciadas por Mairéad
Corrigan-Maguire, católica de Belfast, Irlanda do Norte, Prémio Nobel da Paz;
Rose Hudson-Wilkin, inglesa, pastora anglicana em duas paróquias de Londres;
Joan Chittister, norte-americana, teóloga e religiosa dominicana; e John
Wijngaards, holandês, padre, teólogo e organizador do sítio da internet sobre a ordenação das mulheres na Igreja Católica www.womenpriests.org.
Realizou-se também uma mesa-redonda com participantes da frica do Sul, México,
Colómbia, Uganda, Japão e Hungria. No final da Conferência foram aprovadas as Resoluções que vos enviamos em anexo.
Mairéad Corrigan-Maguire afirmou que a posição do Vaticano sobre a ordenação
das mulheres «é desumanizante, desmoralizante e é uma forma de violência espiritual.» Acrescentou que «muitos católicos entendem agora que uma argumentação teológica baseada na ‘biologia’ torna-se ridícula.» Rose Hudson-Wilkin, casada e mãe de três filhos, deu um testemunho eloquente sobre a sua
caminhada e a sua experiência de vida. Esta oradora substituiu a teóloga indiana
protestante Aruna Gnanadason, do Conselho Mundial das Igrejas, que foi
obrigada a desistir de falar na Conferência devido a pressões do Vaticano sobre
esse Conselho, ameaçando que deixaria de integrar alguns grupos de trabalho
se ela participasse. Segui-se uma excelente intervenção de Joan Chittister,
beneditina há 50 anos, autora de mais de vinte livros, a qual também tinha sido
intimada pela Congregação dos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de
Vida Apostólica a não participar. Contudo, 127 das 128 religiosas da sua
comunidade e também a respectiva Madre Superiora, a apoiaram na decisão.
Numa declaração pública, a Madre Superiora afirmou: «A minha decisão (de
apoiar a participação da Irmã Joan Chittister) não deverá ser entendida como uma
falta de comunhão com a Igreja. Procuro ser fiel ao papel desempenhado na
Igreja no seu todo por uma tradição monástica com 1500 anos de história. A
nossa tradição remonta aos Padres e às Madres do Deserto no 4o século, os
quais viviam à margem da sociedade a fim de se constituírem como presença de
oração e de questionamento tanto dentro da Igreja como na sociedade. As
comunidades beneditinas de homens e de mulheres nunca quiseram fazer parte
integrante da estrutura hierárquica e clerical da Igreja, mas colocar-se à margem
desta estrutura a fim de oferecer uma voz diferente.» A conferência da Irmã Joan
Chittister incidiu sobre «Um ministério ordenado para um povo sacerdotal.»
Afirmou que «uma religião que prega a igualdade das mulheres mas nada faz
para a concretizar nas suas estruturas corre o risco de repetir os erros teológicos
que durante séculos fizeram com que a Igreja não condenasse a escravatura.»
Acrescentou que a Igreja não só tinha que pregar o Evangelho mas também «não
o obstruir» John Wijngaards, que publicou recentemente um livro intitulado «A
Ordenação das Mulheres na Igreja», afirmou que o «desejo da ordenação das
mulheres nasce no âmago da nossa fé católica enquadrada na igualdade dos
homens e das mulheres no sacerdócio universal de Cristo adquirido pelo
baptismo.»
Por sua vez, a religiosa católica inglesa, Myra Poole, da Congregação das Irmãs
de Notre-Dame, de 68 anos de idade e 42 ao serviço da sua Ordem, que tinha
presidido à comissão organizadora durante três anos, foi também intimada, uns
dias antes da Conferência a não estar presente, tendo sido ameaçada pelo
Vaticano de ser expulsa da Ordem. Com grande coragem e depois de muita
oração e reflexão, resolveu, contudo, estar presente, de acordo com a sua
consciência.
Uma semana após o final da Conferência, um porta-voz do Vaticano anunciou que
nenhuma das participantes seria castigada.
Realizaram-se várias cerimónias litúrgicas durante a Conferência, sempre muito
participadas. Por coincidência, uma relíquia de Santa Teresa de Lisieux, que
sempre desejou ser ordenada para o ministério presbiteral, esteve a percorrer a
Irlanda durante o mês anterior à Conferência e a sua partida coincidiu com o
encerramento da Conferência.
Toda a documentação da Conferência, alguma da qual se encontra traduzida para
diversas línguas, pode ser encontrada no seguinte sítio: www.wow2001.org.
Estamos à Vossa disposição para qualquer informação suplementar acerca
deste histórico evento, e subscrevemo-nos na alegria de Jesus.
ANEXO
Resoluções aprovadas na Conferência Ecuménica Mundial sobre
a Ordenação das Mulheres
Preâmbulo: Nós, Povo de Deus, aqui reunidas/os, em Dublin, Irlanda, vindas/os
de vinte e seis países e dos cinco continentes, para participar na Conferência
Ecuménica Mundial sobre a Ordenação das Mulheres, declaramos que como
seguidoras/es de Cristo estamos a corresponder ao chamamento para um
discipulado radical, procurando a justiça a fim de todas e todos poderem
participar no sacramento da Ordem. As e os participantes celebraram com alegria
a liberdade de expressão e o primado da consciência proclamados pelos
ensinamentos do Concílio Vaticano II. Consideramos que toda a obstrução a
estes constitui uma violação dos direitos humanos, impedindo o Espírito Santo
de conduzir as suas igrejas à plenitude da verdade.
As e os participantes na Conferência consideram que as vocações não podem
ser condicionadas por razões de género, etnia, estado civil, orientação sexual,
nível educacional ou oportunidades de vida.
Resoluções:
1. Esta Conferência apela ao Papa para revogar a proibição de se poder
debater a ordenação das mulheres.
2. Esta Conferência apela a cada uma das organizações que integra a
Organização Mundial pela Ordenação das Mulheres a prosseguir o diálogo com os bispos locais, com religiosas e religiosos, sacerdotes e leigos
acerca da ordenação das mulheres, no contexto da reconstituição de um discipulado autêntico.
3. Esta Conferência apela aos dirigentes da Igreja Católica para restabelecer o
diaconato das mulheres de acordo com a prática da Igreja primitiva.
4. Esta Conferência encoraja aquelas mulheres que se sentem chamadas, a
prepararem-se para o diaconato e para o sacerdócio e apoiará o
estabelecimento de cursos de formação adequados, nos lugares onde
ainda não se encontram disponíveis.
5. Esta Conferência está decidida a promover a causa da ordenação das mulheres, chamando constantemente a atenção pública para esta questão, através de eventos realizados pelas organizações que integram esta vontade, e estabelecendo o dia 25 de Março como o dia anual de oração pela ordenação das mulheres. Procurará ainda organizar uma conferência mundial dentro de três a cinco anos.
6. Esta Conferência apela aos ministros de todas as igrejas de adaptar a
linguagem utilizada na liturgia, a fim de que esta possa reflectir a igual
dignidade de todas as pessoas, filhas e filhos de Deus. As imagens de
Deus precisam de reflectir quer o feminino quer o masculino.
7. Esta Conferência saúda Ludmila Javorova, a nossa irmã sacerdote, assim
como as mulheres diáconas, ordenadas pelos corajosos bispos da Igreja
Católica na clandestinidade, na antiga Checoslovaquia e solicita ao Vaticano
que se junte a nós no reconhecimento da validade das suas ordens.
8. Esta Conferência propõe que a Organização Mundial pela Ordenação das
Mulheres, através dos grupos que a integram, proporcione apoio financeiro
para aquelas e aqueles que são excluídos das suas funções profissionais por serem a favor da ordenação das mulheres.
9. Esta Conferência apela à Organização Mundial pela Ordenação das Mulheres, através dos grupos que a integram, que encoraje aquelas
mulheres e homens que tenham sido castigados por serem a favor da
ordenação das mulheres a contar publicamente a sua história e a expor as
atitudes tomadas pelo Vaticano.
10. Esta Conferência propõe que a Organização Mundial pela Ordenação das Mulheres estabeleça um sistema de correio electrónico, de resposta rápida, a fim de apoiar a articulação entre os grupos favoráveis à ordenação das mulheres.
11. Esta Conferência propõe que a estola/laço de cor roxa seja adoptado como o símbolo internacional da ordenação das mulheres.
Dublin, 1 de Julho, 2001
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