VIGLIA DE ORAÇÃO PELO ACESSO DAS MULHERES AO SACRAMENTO DA ORDEM
18 h,19 de Fevereiro 2000, Capela do Rato, Lisboa, Portugal
Movimento Internacional ‘Nós Somos Igreja’
Música e letras, em fundo, da autoria de Hildegard von Bingen*
Acolhimento
Sejam bem vindas todas as pessoas que aqui se encontram para, em conjunto,
orarmos ao Senhor Jesus Cristo pelo acesso das mulheres ao Sacramento da
Ordem.
Recordando a Anunciação também nós dizemos ‘sim’ a fim de dar testemunho a
favor da ordenação das mulheres.
Como mulheres e homens, profundamente crentes, pedimos justiça, igualdade e
plena colegialidade nos ministérios. Estamos comprometidas e comprometidos
na procura de uma Igreja renovada e pela transformação de uma estrutura que
define o sexo como critério para o ministério, em vez de se basear nos dons,
dados pelo Espírito sem olhar ao sexo.
Como vêem, não há presidente visível nesta celebração. Não é por acaso.
Queremos fazer memória das ‘celebrações’, narradas no Novo Testamento, em
que nunca aparece a indicação de quem presidia, porque a assembleia reunida
sabia que o crucificado/ressuscitado estava no meio dela: era o Ausente/Presente
que presidia e toda a assembleia celebrava em Seu nome. É o que nós
pretendemos fazer, aqui, hoje.
Primeira Leitura
Juízes (4, 4-5; 5, 6-7) «Ora Débora, profetisa, mulher de Lapidot, exercia por essa
altura as funções de juiz em Israel. Sentava-se debaixo da palmeira de Débora,
entre Ramá e Betel, na montanha de Efraim, e os israelitas iam ter com ela para
que lhes servisse de árbitro.» (Do cântico de Débora) «Nos dias de Chamegar,
filho de Anat, nos dias de Jael, tinham cessado as caravanas, e os que viajavam,
iam por atalhos tortuosos. Faltavam os chefes, faltavam as forças em Israel, até
que eu, Débora, me levantei, levantei-me como mãe em Israel.»
Oração
Voz: Paz a vós, filhas e filhos de Deus!
Assembleia: Que alegria poder estarmos aqui em união, a responder ao teu
chamamento!
Voz: Deus escolheu uma mulher para ser juíza e mãe em Israel. Jesus declarou
que vinha, ungido de Deus, libertar da opressão todos os excluídos.
Assembleia: Quando chegará esse tempo?
Voz: Quando em comunidade fizermos novas as estruturas velhas.
Assembleia: Damos-Te graças, Espírito Santo, que anunciaste esse dia
prometido. Aguardamo-lo na fé para Te podermos celebrar. Cumpra-se tudo
segundo a Tua palavra.
Voz: O Espírito Santo chamou-nos aqui para darmos testemunho a favor da
ordenação das mulheres. Estamos tocadas e tocados pelo Espírito. Dizemos que
‘sim’.
Assembleia: Bendizemos a Deus, com um compromisso que partilhamos a favor
da igualdade na nossa Igreja. Ajuda-nos a responder com fé à tua chamada, sem
fraquejar. Frente à dor da exclusão, não permitas que o cansaço e a amargura
jamais cheguem a manchar a nossa luta. Ajuda-nos a prosseguir o nosso
caminho com o amor e a compaixão suficientes para tocar até os corações mais
endurecidos.
Poema de Hildegard von Bingen*
Assembleia:
Somos uma roda, um círculo de vida
Somos uma roda, um círculo de poder
Somos uma roda, um círculo de luz
Que nesta hora sagrada envolve o mundo
Reflexão
Qual é pois a Igreja que queremos? Clamamos por uma Igreja na qual os
ministérios estejam abertos a mulheres e a homens; abertos às pessoas
escolhidas para a liderança pelas suas comunidades sem ter em conta nem o
sexo, nem o género, nem a raça, nem a classe social; ordenadas para a vida ou
para servir durante um período limitado; para o ministério universal ou para as
pequenas comunidades; que cuidem, que governem, que administrem, que
ajudem. Procuramos uma Igreja que creia, que celebre toda a forma de ministério
que liberte a comunidade inteira, uma Igreja em que todos e todas cooperem em
conjunto como discípulos e discípulas tendo em vista o reino de Deus no nosso
mundo.
Segunda leitura
Epístola aos Gálatas (3, 26-28): «É que todos vós sois filhos de Deus em Cristo
Jesus, mediante a fé; pois todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-
vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre;
não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus.»
Oração
Voz: ‘É que todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé’. Se
todos somos filhos de Deus, todos somos participantes, em perfeita igualdade,
da mesma Igreja.
Assembleia: Dá-nos, Senhor, uma consciência cada vez maior da nossa
participação na Igreja una.
Reflexão
O nosso mais profundo temor não é que não estejamos à altura da missão. O
nosso mais profundo temor é não corresponder ao desafio a que somos
chamadas e chamados pelo Espírito. O que mais nos assusta é a luz que
podemos irradiar e não a nossa escuridão. Nós perguntamos «Quem sou eu
para me expor, para tomar a palavra, para liderar?» Mas podemo-nos interrogar
porque não o fazemos e não o assumimos. Afinal somos filhos e filhas de Deus.
Os medrosos, as medrosas não servem o mundo. Não é sensato, correcto nem
próprio, mantermo-nos na retaguarda com receio de incomodar aqueles que se
sentem inseguros na nossa companhia. Nascemos para manifestar a glória e a
graça de Deus, que se encontra em nós. Essa glória e essa graça não se
encontra apenas em algumas ou alguns de nós. Está presente em todas as
pessoas. Ao deixar brilhar a nossa luz, estamos a encorajar outras pessoas para
também o fazerem. Ao libertarmo-nos do nosso temor, libertamos também
outras e outros.
Terceira leitura
(João 11, 25-27 e 20, 17-18) (Jesus fala com Marta) «Disse-lhe Jesus: ‘Eu sou a
Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E
todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?’ Ela
respondeu-lhe: ‘Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que
havia de vir ao mundo.’» (e com Maria Madalena) «Jesus disse-lhe: ‘Não me
detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-
lhes: ‘Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso
Deus.’ Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: ‘Vi o Senhor!’ E contou o
que Ele lhe tinha dito.»
Oração
Voz: Duas mulheres dão testemunho de Jesus como Cristo. O seu testemunho
não pode continuar a ser silenciado. Temos que proclamá-lo bem alto para que
todo o mundo o ouça.
Assembleia: Benditas e benditos sejam as mulheres e os homens que anunciam
Jesus ressuscitado e que falam de esperança e de futuro.
Texto de Anne Nasimiyu, teóloga queniana, religiosa missionária
«Podemos dizer que no Norte ou no Sul, em todo o mundo, as mulheres são a
espinha dorsal da Igreja. Se se excluíssem as mulheres, a Igreja cairia. Se as
mulheres dissessem que boicotavam a Igreja ou que não contribuíam em nada
para a Igreja, esta não funcionaria. A Igreja está viva por causa das mulheres. O
único problema é que às mulheres foi negada a participação nos processos de
decisão da Igreja. Na Igreja, as decisões são tomadas de forma hierárquica,
clerical, numa espécie de casta. Talvez seja necessário repensar toda a
instituição sacerdotal: é para o serviço, e para o serviço a quem, ou é apenas uma
administração, um funcionalismo, para dispensar alguns sacramentos às
pessoas. Penso que tem que ser um ministério para as pessoas, um caminho
com o povo, sofrendo com o povo. Eis como vejo o sacerdócio, e como veria as
mulheres a integrá-lo. Mas na situação que temos, seria terrível que as mulheres
fossem incluídas nesse clericalismo.»
Oração das Mulheres sobre os Sacramentos
Voz: Dá-nos, Senhor, fé bastante para, em nome de Jesus ressuscitado,
suscitarmos novos filhos para o reino de Deus.
Assembleia: Dá-nos, Senhor, a graça de, com as nossas mãos, podermos partir
o pão e distribuir o vinho, como as nossas mães na fé, aquelas mulheres que,
nas primitivas igrejas domésticas, presidiam, em nome de Jesus, ao banquete
eucarístico e fraterno.
Voz: Dá-nos, Senhor a graça de, na doença das nossas irmãs e dos nossos
irmãos, sermos capazes de dizer a palavra certa e com as nossas mãos ungir os
seus corpos sofredores.
Texto de Frei Herculano Alves, teólogo capuchinho português
«Tudo indica que a proibição da ordenação das mulheres não é de direito divino.
Primeiramente porque o homem e a mulher são da mesma natureza. Diante de
Deus, não há homem e mulher. Pela exegese bíblica não aparece que Cristo
tenha negado às mulheres os mesmos direitos que aos homens. Por isso,
muitos teólogos afirmam que apenas factores de ordem sociológica, psicológica
e pastoral estão na raiz de tal proibição. Como as condições culturais mudaram
radicalmente, colocando a mulher num novo plano, isso facilita a compreensão
da nova situação dentro da Igreja e da sua participação nos ministérios
ordenados.»
Intervenções espontâneas da Assembleia
Evocação
Voz: Evoquemos algumas mulheres que nos precederam na fé, desde Abraão ao
nascimento da Igreja e que assumiram a liderança quando impulsionadas pelo
Espírito de Deus:
— Sara, Rebeca, Tamar – as grandes matriarcas – que não hesitaram em tomar a
iniciativa de conduzir o futuro (Gn 16; 18, 1-15; 21, 1-14; 25, 19ss; 27; 38)
— Débora e Judite a quem o povo obedeceu porque lhes reconheceu a sabedoria
e a coragem de enfrentar o perigo, salvando o povo (Jz 4-5; Jud)
— Samaritana que não vacilou nem se intimidou em anunciar o Messias
esperado (Jo 4)
— Maria, irmã de Marta, que percebeu que o importante era ser discípula e, para
tal tinha de ouvir o Mestre, mesmo que isso exigisse romper com alguns ‘tabus’
(Lc 10, 38ss)
— Maria de Betânea que antecipou o futuro, ungindo em vida Aquele que só
depois da morte seria considerado o Messias, o Senhor (Mc 14, 3-9)
— Mulheres no sepulcro que persistiram em ser discípulas mesmo, e sobretudo,
nas horas da treva (Mt 72, 57-61)
— Maria Madalena que teve a sensibilidade e a coragem de reunir, de congregar
os filhos e filhas de Deus dispersos, isto é, não teve medo de assumir a
liderança na ‘fundação’ da Igreja, o que lhe mereceu o título de Apóstola dos apóstolos (Jo 2, 11-18)
Texto elaborado na 34a Congregação Geral da Companhia de Jesus (1995)
«Estamos conscientes do prejuízo que tem causado no Povo de Deus a
alienação da mulher, a qual, nalgumas culturas, já não se sente à vontade na
Igreja e não pode, por isso, transmitir plenamente os valores católicos às suas
famílias, amigos e colegas. (…) Como resposta, primeiro pedimos a Deus a
graça da conversão. Temos sido parte de uma tradição civil e eclesial que
ofendeu a mulher. Como muitos outros homens, temos tendência a convencer-nos de que o problema não existe.»
Poema de Miriam Therese Winter
Assembleia:
Sereis minhas testemunhas em todo o mundo
narrando o ouvido e o recebido
Ressuscitei, convosco estou pois fostes crentes!
Mulheres no sepulcro, chorando pelo Morto
Aqui não está, ressuscitou conforme disse.
Mas quem detinha a autoridade
Pensou que esta notícia não passava de pura fantasia.
Madalena no sepulcro, quem buscas?
Abriram-se os seus olhos quando ouviu a voz de Jesus
O Seu amor pelas mulheres brilhou no rosto
A esperança de sempre nos Seus braços se encontrou
Mulheres, saiam do vosso sepulcro. Afastem a pedra tumular
Não desesperais ante tanto sonho que morreu
Não tenhais medo perante a visão que se aproxima
Voltem a acreditar em milagres. Creiam em Mim.
Reflexão de Santa Teresa de Ávila (1515-1582)
Assembleia:
«Vejo os tempos em que não haverá razões para excluir ânimos virtuosos e fortes
pelo simples facto de serem mulheres.»
* Hildegard von Bingen (1098-1179), viveu na Alemanha. Foi abadessa de um
mosteiro Beneditino, escritora, pregadora, poeta e compositora. Autora de nove
livros sobre teologia, medicina, ciência e fisiologia. No seu tempo, foi muito
conhecida como uma mulher piedosa e forte. Dela foi dito: ‘Se Hildegard von
Bingen tivesse nascido homem, ela seria conhecida em todo o lado como uma
grande artista e intelectual.»
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