REALCE AO GÉNIO DA MULHER
Leonor Xavier
Escritora e jornalista
Uma itinerância pelo país, ao acaso de domingos sem prévia geografia e com
prática de missa, pode ser um bom sinal de alerta para a situação da Igreja em
Portugal. É também uma boa oportunidade de relembrar o “Chegou a Hora”
proclamado à opinião pública em 1 de Julho de 2001 em Dublin, por ocasião da
Conferência Ecuménica Mundial, quando o dia 25 de Março se tornou Dia Anual
de Oração pela Ordenação das Mulheres.
Conforme dados da Conferência Episcopal, nas nossas igrejas, os 3190
sacerdotes que celebram a missa têm mais de 60 anos em média, e só uma vez
em duas são titulares das 4370 paróquias existentes. Na maioria destas missas
de Domingo, o celebrante é acolitado por duas jovens vestidas de hábito branco,
de cabelos soltos e compridos. A Comunhão é administrada pelo celebrante e
por mulheres de idade madura, que maioritariamente se ocupam das leituras
dominicais e dos cânticos ao longo da celebração. Implicitamente, estas
mulheres têm a seu cargo a catequese, as reuniões de jovens, as assembleias
de fiéis, os preparativos para as celebrações de dias santos e de festa, a
decoração, as limpezas dos lugares de culto, os serviços e toda a funcionalidade
da paróquia. Eficazes, dóceis, disponíveis, alinhadas, humildes, são
responsáveis pelo que respeita ao ciclo litúrgico, à vida espiritual da comunidade
e à concreta administração de cada dia. São mulheres em estado de obediência
à simbologia dos escritos evangélicos, de acordo com a palavra do Papa João
Paulo II ao longo do seu Pontificado, e assim confirmada no actual ordenamento
da Igreja.
Esta obediência é difícil de aceitar, no tempo em que vivemos. Muito além de
destinadas ao matrimónio e à maternidade, as mulheres estão em todos os
sectores profissionais, cumprem todos os graus de desempenho nas suas
carreiras, exprimem-se em todas as áreas de criatividade, têm níveis de formação
compatíveis com o exercício de qualquer função. No Estado de Direito, afirma-se
o direito à igualdade de oportunidades, na diferença assumida dos sexos. Na
civilização contemporânea, a presença das mulheres tem sido fermento para o
desenho de uma nova sociedade. Na Igreja, elas são um testemunho de fé no
espaço da casa e da rua, do público e do privado. Mas, apesar disso, não têm
direito à representatividade, à autoridade, à gestão, à decisão. Não lhes é
permitido superar a diferença entre clero e leigos, porque àquelas que tenham
vocação é negado o acesso pleno a todos os ministérios ordenados.
No entanto, outros rumos se esperavam em 1995, às vésperas da Conferência
Mundial de Pequim. “Que se dê todo o realce ao génio da mulher” foi então o
alerta de João Paulo II, na Carta às Mulheres que foi documento base para a
Conferência. O Papa pedia a criação de um “novo feminismo” que dispensasse
modelos masculinos em todas as expressões sociais e fosse determinado para
acabar com todas as formas de exploração, violência, discriminação. Exigia a
igualdade de oportunidades para a mulher no trabalho, o respeito pela sua
dignidade, a partilha das tarefas com o homem em casa, a complementaridade
dos sexos. Em tudo, estava a paridade de direito e de facto noutros momentos
afirmada como referência para os caminhos da Igreja.
Mas na mesma Carta, João Paulo II recusa a ordenação das mulheres, dizendo
que se Jesus Cristo “confiou somente aos homens o dever de ser ‘ícone’ da
Igreja, através do exercício do sacerdócio ministerial, isso nada retira ao papel
das mulheres”. Neste ponto, um dos mais polémicos da Igreja contemporânea, o
Papa já tinha escrito, em 1994, um dos documentos mais curtos e firmes do seu
Pontificado. Nesse ano em que pela primeira vez foram ordenadas mulheres na
Igreja Anglicana, a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis é radical no argumento
evangélico, “por a Virgem Maria Mãe de Deus e Mãe da Igreja não ter recebido a
missão específica dos apóstolos nem o sacerdócio ministerial”. Não sirva o
argumento, diz o Papa, para “dizer que as mulheres têm menor dignidade ou
sejam objecto de discriminação.”
Polémica, contestação, reflexão em grupo, oração em vigília têm sido reacções
expressivas de desagrado neste quesito de obediência devido pelos católicos,
sobretudo pelas mulheres, à posição de João Paulo II. O movimento internacional
Nós Somos Igreja, desde Setembro de 1997 em Portugal, tem lutado pela justiça,
pela tolerância e renovação da Igreja. Desde o primeiro dia e em uníssuno,
católicos do mundo inteiro pedem a Roma uma Igreja mais fraterna, uma Igreja
que reformule os ministérios ordenados, que valorize a sexualidade, que defenda
os direitos humanos. Uma igreja que tenha uma nova atitude em relação às
mulheres, que reveja a sua participação na comunidade.
Num momento em que a Igreja Católica reconhece a falta de padres e os
seminários portugueses se vão esvaindo de presenças, em que uma Campanha
Nacional de Oração e um Serviço Nacional de Vocações estão previstos para um
desafio de vida aos jovens, por maioria de razões seja entre nós celebrado o Dia
Anual de Oração pela Ordenação das Mulheres. Hoje, 25 de Março.
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