A MORTE ASSISTIDA DE WELBY: QUESTÕES BIOÉTICAS E RELIGIOSAS
Laura Ferreira dos Santos
Docente da Universidade do Minho (IEP)
1. O caso. Desde Abril de 2006 que Piergiorgio Welby (PW) (1945-2006) era co-presidente da Associazione Luca Coscioni per la libertá di ricerca scientifica, organização que tem o nosso escritor José Saramago como Presidente d'onore. Em Setembro deste ano, apoiado pela Associação Coscioni, ligada aos Radicais italianos, começa a sua luta: ama a vida, t em medo da morte, mas tem mais medo de continuar a viver assim — quer a eutanásia. O caso vai a tribunal, que reconhece o seu direito à interrupção do tratamento, mas acrescentando que essa interrupção não está legislada, deve ser entregue aos políticos. Piergiorgio que espere. Entretanto o Conselho Superior de Saúde italiano diz não se tratar de «encarniçamento terapêutico»: o tratamento não é «excessivo» e o doente não está em estado de morte iminente. Além do mais, quem decide classificar um tratamento de exagerado ou não é o pessoal médico, não é a/o doente. Vendo-se que, legalmente, Piergiorgio não conseguiria nada, Mario Riccio, médico anestesista, supostamente ligado à Associação Coscioni, vem de Cremona a Roma desligar Welby do ventilador, sedando-o intensamente antes para que não morra sufocado.
2. Perguntas. A) A morte de PW deve ser entendida como suicídio assistido ou como interrupção do tratamento, na base do consentimento livre e informado e, portanto, na auto-determinação do/a doente? Se é interrupção do tratamento, como pretender que pudesse ter sido feito sem uma forte sedação anterior, para que PW não sufocasse ao ser desligado do ventilador? Seria necessário que PW mostrasse sinais de sufocação para só depois o sedar? Timothy Quill, respeitado médico e professor universitário americano, conta em A Midwife through the Dying Process (1996) como um doente teve de ser de novo colocado no ventilador depois da sedação que possibilitava deixá-lo morrer, pois parecia estar ainda em luta pelo oxigénio.
B) PW estaria deprimido por estar preso no seu próprio corpo? Ou há situações que não podem ser tratadas com anti-depressivos, mas apenas com respeito pela vontade lúcida e informada do outro? Quem atribui à depressão toda a vontade de morrer expressa por um/a doente em grande e permanente sofrimento, físico e/ou existencial, como no caso de PW, não está ele/a próprio/a num grande estado eufórico, incapaz de compreender o sofrimento alheio?
C) Segundo os especialistas — T. Quill é um deles —, há circunstâncias do morrer que nem os melhores cuidados paliativos resolvem. Para além disso, há as convicções de cada um/a. Quem decide do que eu consigo suportar? O pessoal médico? Quando estou grave e irrecuperavelmente doente, passo a pertencer ao Estado ou a uma ortodoxia religiosa? Não será que a mesma dor, se tal existisse, desencadearia reacções diferentes em pessoas diferentes, consoante a sua sensibilidade e o significado/sentido que lhe atribuísse, ou seja, de acordo com a «natureza» da pessoa em causa? Então, como impor aos outros a minha noção de «boa morte»?
3. O religioso. Apresentada nos jornais italianos como católica praticante, a mulher de PW solicitou um funeral católico, que lhe é recusado. As autoridades eclesiásticas romanas explicam: «Entendemos que no mero suicídio a pessoa não sabe o que está a fazer. Mas, aqui, houve uma vontade reiterada de pôr fim à vida, o que não é admitido pela Igreja». Por isso, o funeral, a 24 de Dezembro, com a presença de 3 a 4 mil pessoas, foi laico. Uma vinheta magnífica do jornal Le Monde punha o dedo na ferida: Cristo na Cruz, por trás da cama de PW – o que aparece de facto é um corpo de homem que acaba de morrer, tendo sido desligadas todas as fichas eléctricas do seu corpo—, inclina-se para ele e puxa-o para si. Ao negar o suicídio assistido e a eutanásia, a Igreja estará a ser infiel a Cristo? O teólogo Hans Küng assim o pensa: as pessoas «têm não só o direito a uma vida digna, mas também o direito a uma morte e adeus dignos, um direito que pode [...] ser recusado por uma dependência interminável de máquinas ou medicamentos» (cf. Dying with Dignity. A Plea for Personal Responsibility, 1995: 27). A vida humana é, afirma, um «dom do amor de Deus». Mas, acrescenta, «de acordo com a vontade de Deus, a vida também é uma tarefa humana tornada nossa responsabilidade [...]. É uma autonomia baseada numa teonomia» (ibid.: 26).
Bem sabemos quanto uma visão sacrificial da morte de Cristo contribui para uma exaltação do sofrimento. Faltaria perguntar, na linha de René Girard, se Cristo, acima de tudo, se sacrificou ou foi assassinado. E, evidentemente, qual a lógica de um estado laico se submeter à ortodoxia de uma qualquer Igreja.
Texto pulicado no jornal Público
[ Enviar este texto ]