A homilia de Natal do sr. cardeal-patriarca de Lisboa
Laura Ferreira dos Santos, Público, 6 de Dezembro, p. 46.
O ano passado, na homilia da noite de Natal, o Sr. Cardeal disse que o maior drama da humanidade era constituído por «todas as formas de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus». Como (se) sabe, tal afirmação mereceu sérias críticas. Perguntei-me: “O Sr. Cardeal, numa «Grande Entrevista» conduzida por Judite de Sousa na RTP1, expressar-se-ia do mesmo modo?”
Não creio. E porquê? Porque, embalado pela «beleza da diferença», como gosta de dizer quando se refere a homens e mulheres, sentiria que a sua frase era demasiado deselegante perante a jornalista? Também não creio. Porquê? Simplesmente porque o Sr. Cardeal não acredita propriamente naquilo que disse na noite de Natal. O Sr. Cardeal tem cultura e bom senso suficientes para saber que o que disse, atendendo ao seu sentido literal, não é verdadeiro. O Sr. Cardeal dialogou com Eduardo Prado Coelho — Diálogos sobre a Fé (2004) —, recusando desde o início a «equação simplista do diálogo entre o crente e o descrente» (p. 35). O Sr. Cardeal sabe com certeza que há quem pense, ao contrário do que expressou, que o maior drama da humanidade é precisamente a fé e as religiões, com crenças injustificadas que facilmente legitimam o terrorismo (cf. Sam Harris, O Fim da Fé, se se tiver paciência para o aturar). No entanto, é-nos impossível pensar que o Sr. Cardeal Patriarca mentiu na homilia de Natal. Então, que aconteceu?
O Sr. Cardeal quis decerto dizer que o esquecimento do sofrimento e da dignidade do outro é o maior drama da humanidade, desembocando igualmente em desastres ecológicos que se podem tornar irreversíveis. O Sr. Cardeal quis decerto dizer que Deus nos entregou inacabados uns aos outros, não para que alguns tirem proveito do meu inacabamento e vulnerabilidade, mas para que possamos ajudar Deus a ajudar-nos, para utilizar a conhecida expressão da judia Etty Hillesum, morta num campo de concentração. Como sabe, pode-se ir todos os dias à comunhão, distribuir uma parte dos lucros pelas campanhas ditas «pró-vida» e arriscar-se a ser expulso do templo com os outros vendilhões. Portanto, parece-me que o discurso do Sr. Cardeal fez curto-circuito algures. Mas porquê?
Para mim, só há uma explicação: ao envergar os trajes de cardeal, cedeu ao peso do lugar e pôs entre parêntesis o seu bom senso, inteligência e cultura, entrando por simplismos inaceitáveis. Aqueles trajes são feitos para dizer a «verdade», não para introduzir matizes, que se julga irem causar confusão no rebanho, estúpido por natureza (sobretudo por ser o português?). Assim, as vestes e o lugar possibilitaram-lhe dizer o que não diria a Judite de Sousa na RTP e o que não disse a Eduardo Prado Coelho. Não é má fé, não é calculismo, é «assim»: aquelas vestes pomposas e rígidas tornam o raciocínio também rígido, com elas por cima já não conseguimos ver em «D.» José Policarpo o homem afável e culto que vemos e ouvimos noutros lugares, puxando por vezes do cigarro sem complexos fundamentalistas anti-tabágicos. É pena: perdem as/os católicas/os e perde a sociedade portuguesa, por não a obrigarem a pensar e ser levada a crer que da hierarquia católica - e dos/as católicos/as em geral - nada de interessante pode surgir.
Sugiro que este ano o Sr. Cardeal prepare a homilia no café, enquanto fuma um cigarro. É capaz de sair melhor...
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