A Igreja Católica e as "famílias alternativas"
Laura Ferreira dos Santos
Docente da Universidade do Minho-IEP



1. Esclarecimento prévio: sou católica, casada há 24 anos com um agnóstico. Não tenho crianças. Sou heterossexual, não sei em que percentagem de "pureza".

2. Confesso: nunca tive uma boa ideia da família. Cresci a pensar numa família alternativa àquela em que nasci. Acima de tudo, não queria vir a ter a vida da minha mãe, dependente economicamente do marido (embora o meu pai até fosse uma óptima pessoa), sempre com medo de engravidar, irritada com um mundo que a colocava em segundo lugar por ser mulher, não obstante os discursos da Igreja que colocavam as mães – preferencialmente, as mães donas de casa, quer dizer, sem profissão que lhes possibilitasse um salário próprio – num pedestal.

3. Depois desta experiência desastrosa com a "família", aprendi também que o próprio termo "família" servia para discriminar. Um dia, na universidade, sugeri que a próxima reunião fosse lá pelas 17h00. Mal acabara de fazer a sugestão e lá estava a ouvir a voz estridente de uma colega a vociferar: "Mas eu tenho família!" Fiz de conta que não percebi, disse que todas/os tínhamos família, mas é claro que percebi onde se pretendia chegar: eu era casada, mas não tinha filha ou filho para mostrar, ao contrário da colega, com um rebento. Logo, se eu era casada e não tinha filha/o, não tinha família. Ajudei sempre a minha mãe nos seus longos tempos de viuvez, acompanhei-a durante os nove meses em que esperava a morte por cancro, quando já se detectara cancro em mim um pouco antes do que nela, mas eu não tinha família. Por hipótese, quando um dia, da família que herdei, só tiver uns primos longínquos em 10º grau e o meu marido ainda estiver vivo, a minha família serão os primos que nem sequer conheço e não o meu marido. Credo quid est absurdum.

3.1. Há uma ideologia católica da família que é uma ideologia de inferioridade transformada depois em política de exclusão. Tento explicar: segundo a Igreja, há um esquema "arbóreo" (por oposição a "rizomático", cf. Deleuze...) que distingue as verdadeiras famílias das uniões de "vida gregária" (cf. "D". Carlos Azevedo, PÚBLICO, 8/06/06, 30). E a verdadeira família, "o único modelo de família que existe" (ibid.), é óbvio que é aquela que mais se aproxima da "tradicional", aquela em que a mulher só usa os métodos das temperaturas e tende a viver em casa na dependência económica do marido, apetecendo dizer, com Rousseau, que, nesta perspectiva, a mulher honesta é a que está grávida ou de parto.

4. O meu desejo. Gostava muito que um ou vários dos nossos "dons" bispos casasse, tivesse até um casamento impossível que levasse ao divórcio, que o casal se enchesse de filhos com o mau funcionamento do método das temperaturas, que uma filha "saísse" lésbica, um filho gay e outro transexual, que uma filha hetero abortasse e fosse encarcerada e que uma outra se divorciasse e o pai das crianças não pagasse a pensão. Se, no fim disto tudo, o "dom" anterior não tivesse mudado, ou pelo menos flexibilizado, a sua opinião sobre a família, proporia que fosse estudado pelo António Damásio.

5. Com a família "estranha" de que o próprio Jesus Cristo emergiu e com as palavras distanciadas e críticas com que algumas vezes se referiu aos "seus" – "Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe" (Mc, 3, 35) -, duvido que subscrevesse inteiramente o que a Igreja afirma sobre esta entidade "sagrada".

6. Para que a Igreja institucional tenha menos receio do processo de secularização e do pluralismo "razoável" contemporâneo, leia por ex. o filósofo G. Vattimo (Après la chrétienté). Um pouco de cultura contemporânea ficava-lhe muito bem.

7. Tenho acompanhado a notável série televisiva Six Feet Under. Nela, um casal homossexual masculino "estável" está a tentar adoptar dois irmãos. Como seria afinal de esperar, este casal enfrenta os mesmos problemas de relacionamento amoroso dos casais heterossexuais. Felizmente, há várias alternativas a um determinado tipo de "família" que tantas vezes funcionou de um modo sufocante para os seus membros – o que não há é alternativa às exigências diferenciadas que o amor impõe a quem se ama de facto. Mas isso é uma conversa completamente diferente dos discursos discriminatórios com base na defesa da "família".


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