DEUS GOSTA DAS MULHERES?
MULHERES NA IGREJA E NA SOCIEDADE NO NOVO MILÉNIO
Lavinia Byrne
Faculdade de Letras de Lisboa, Out. 2000,
a convite do Movimento Internacional
Nós Somos Igreja — Secção Portuguesa
Deus gosta das mulheres? É esta uma questão crucial que eu vou abordar com
grande gosto, porque estou muito sinceramente convicta que a resposta é
afirmativa e tenho passado uma grande parte dos últimos dez ou quinze anos a
demonstrar que tal é verdade. Mas quando me desloquei a uma grande escola
londrina para raparigas, e falei para um auditório de 300 raparigas da parte da
manhã e participei num seminário com 80 raparigas da parte da tarde, estava lá
uma menina com cerca de 12 anos que pediu a palavra para dizer o seguinte:
‘Parece-me a mim que, de facto, Deus gosta das mulheres, mas dizem-nos que
Deus prefere os homens.’ Trata-se de um dilema que foi assim colocado de uma
forma muito simples. Tenho que agradecer aquela menina o facto de ter colocado
a questão desta maneira singela. Trata-se de uma questão que desacredita a
Igreja ao iniciarmos um novo milénio.
Como é que a Igreja se atreve a fazer com que seja sequer necessário colocar a
questão desta forma? Como mulher católica que sou, eu sei que pertenço a uma
das poucas instituições sociais ou políticas existentes que ainda exclui
sistematicamente das suas estruturas, as mulheres. A Igreja reclama uma
autoridade moral absoluta, e no entanto as suas decisões são tomadas por
homens, por de trás de portas fechadas; o dinheiro é colocado num banco por
homens, em locais secretos; a teologia que marca o nosso lugar na vida pública
ou privada é construída por homens, sem contar connosco. Não há qualquer
verdadeiro sentido de colaboração ou de parceria.
As mulheres são muito facilmente consideradas como o inimigo, porque somos
‘a outra’ e havendo um clero celibatário no comando da igreja então, obviamente,
as mulheres serão sempre ‘a outra’, a desconhecida, a não familiar. A ética que
orienta a moral pública da igreja baseia-se numa versão em ‘estado sólido’
acerca das verdades humanas e sociais. E isto deve-se ao facto que a nossa
visão da moral baseia-se de alguma forma num universo que já não corresponde
ao que se passa actualmente. A forma antiga de transmissão radiofónica já não
corresponde ao mundo dos dígitos, dos átomos, e processo, com o qual lidamos
hoje em dia. Por isso, o ensinamento da Igreja Católica sobre a contracepção, o
aborto, a homosexualidade, o divórcio, o perdão da dívida, os pecados sociais do
mundo presente, a violência contra as mulheres, a violência das mulheres contra
os homens, o abuso das crianças, todas estas questões, onde também se inclui
o recasamento parecem está moldadas em pedra. Não estão sujeitas a uma
perspectiva da moral que tem que é obrigada a enfrentar a questão do processo.
Temos que reconhecer que tudo isto não é apenas um problema da Igreja
Católica. As mulheres são silenciadas na igreja, tal como o são na sinagoga, e
na mesquita. Não há espaço para o nosso contributo. Se a nossa crença
religiosa, e a nossa construção religiosa é projectada apenas por homens, então
é evidente que não podem estar enformadas pelo contributo das mulheres. E no
entanto, fico animada com as palavras de um cardeal inglês do século XIX, John
Henry Newman, que escreveu o que considero constituir um pensamento muito
importante: ‘Ser humano significa mudança, significa mudar; para se ser perfeito
é necessário ter mudado muitas vezes.’ A Igreja Católica aspira à perfeição. Então
não deverá essa Igreja procurar mudar e mudar muitas vezes? E por isso sou
levada a colocar uma pergunta simples: não será perigoso para toda a
sociedade, para os rapazes jovens e para as raparigas jovens, que estão lá fora,
que não se encontram dentro desta sala, que são estudantes desta faculdade,
não será para eles e elas perigoso o facto da Igreja Católica ser, aparentemente,
tão profundamente sexista?
Pensem bem como é que se exerce o poder. Porque quanto a mim estas
questões não têm a ver com teologia e nem sequer com sociologia, não têm
sequer a ver com a nossa literacia emocional – mas antes têm a ver com
psicologia – têm a ver com a forma de utilização do poder por parte dos homens e
das mulheres. A forma de como negoceiam o poder. A forma como enfrentam o
poder. Os dirigentes da nossa Igreja dizem-nos que estas coisas têm a ver com
teologia. Pensem na forma como, quer a Igreja quer a sociedade em geral,
conspiraram tendo em vista, por um lado exaltar as mulheres e por outro humilhá-
las porque os mesmos argumentos são utilizados por ambas.
Alguns dos constrangimentos que são utilizados quer para nos exaltar quer para
nos silenciar, poderão ser de carácter religioso, outros de carácter político e ainda
outros de carácter social. Eu penso que são os religiosos que são os mais
difíceis de enfrentar porque os religiosos vêm revestidos com o manto da verdade
absoluta e dizem-nos que não podemos discordar. Faz-se imensa pressão
emocional sobre os crentes para subscreverem os ensinamentos da Igreja
Católica sobre as mulheres. Eu quero agora citar umas palavras escritas por
João Paulo I, aquele Papa que só durou 30 dias, e que ele dirigiu às mulheres
italianas, quando ainda era Cardeal, mas na minha óptica resume perfeitamente
a perspectiva sentimental da Igreja acerca da dignidade das mulheres:
‘O marido … quererá sempre que a sua esposa tenha um aspecto bonito e uma
boa figura, que se mova com graciosidade e que se vista com elegância; ele
também ficará orgulhoso se ela já tiver lido Shakespeare e Tolstoi, mas ele
também tem sentido prático e gosta de comer bem e por isso ficará duplamente
feliz se descobrir que para além de uma linda esposa ele adquiriu uma rainha da
cozinha, sem preço, e uma rainha de um chão bem limpo, e de uma casa tornada
bonita por mãos delicadas e de crianças criadas como flores vivas.’
Portanto, bem-vinda seja a rainha da cozinha, a rainha de um chão bem limpo,
será nisto que consiste a vossa dignidade? Será este o vosso destino? Bem-vindo ao homem, rei do universo, para andar por cima do vosso chão bem limpo
com as suas botas sujas. Eis o dilema. E vejam lá se têm lido Shakespeare e
Tolstoi recentemente, para além de irem à ginástica.
Não é para admirar que eu fique escandalisada quando uma amiga me afirma ‘
quando vou à Igreja sinto que tenho que deixar lá fora o meu cérebro.’ Que
desperdício de talento. E também que desperdício de algo que deveríamos
verdadeiramente apreciar. Porque eu também vos quero dizer que creio que as
vozes das mulheres são diferentes. Somos mais do que cozinheiras, limpadoras
e cuidadoras de crianças. E temos razão por estarmos orgulhosas dos nossos
talentos como cozinheiras, como limpadoras, como criadoras de crianças. Eu
gosto deste destino. Eu gosto imenso de cozinhar. Mas também gosto de saber
que o meu irmão também sabe cozinhar. Temos algo de distinto a dizer e quer a
Igreja, quer a sociedade precisam de nos ouvir.
E então o que será isso? O que deverá ser o contributo específico das mulheres
para o diálogo da vida e do discurso humano? O que será único naquilo que nós
pretendemos afirmar? Há muita investigação que comprova que as mulheres são
boas a realizar uma multiplicidade de tarefas simultâneas. Sabemos como pôr
em marcha vários projectos ao mesmo tempo porque os nossos cérebros
conseguem operar em ambos os hemisférios simultaneamente. Neste mundo
agitado e complicado em que agora vivemos esta é uma capacidade que
devemos preservar com cuidado. Além disso, somos boas comunicadoras.
Sabemos ouvir, temos uma longa prática de escuta, e sabemos usar as palavras
como um instrumento relacional. Sabemos construir a comunidade e como
utilizar as palavras na tarefa da construção da comunidade. Entregamo-nos nos
relacionamentos e instintivamente somos capazes de estabelecer ligações e
criar redes. Sabemo-nos dirigir à pessoa que naquela sala se sente excluída, não
sei se já repararam que quando as mulheres falam umas com as outras, gostam
de se olhar face a face. Quando os homens falam uns com os outros preferem
manter-se de lado, olhando para fora. Eu já tenho dado formação a mulheres
anglicanas que se preparam para a ordenação e eu digo-lhes sempre: quando o
prior vos for apresentado pela primeira vez não o olhem de frente, porque vão
meter-lhe medo. Fiquem de lado e olhem para fora porque assim ele não terá
medo de vós e poderá melhor relacionar-se convosco. Estamos a falar de
capacidades, de dons humanos, que valorizam a família humana, a comunidade
humana. Eu não sou uma grande feminista que está a advogar a eliminação dos
homens. Nem pensar. O que me concerne é o desenvolvimento das relações
entre as mulheres e os homens. O que me preocupa é a literacia emocional, quer
para os homens como para as mulheres. E para as crianças, em especial para
as crianças do sexo masculino porque, actualmente, estes encontram-se no
fundo do saco. No meu país, actualmente, as raparigas estão a ter grande
sucesso em especial em provas públicas mas os rapazes parece que estão a
sofrer. Que podemos nós fazer para desenvolver a literacia emocional de toda a
comunidade humana?
Então o que se passará quando estes dons – a capacidade de desenvolver várias
tarefas ao mesmo tempo, a comunicação, a construção de redes, o cuidado da
família – forem libertados para o interior da vida da Igreja, ou para dentro de
qualquer organização que tenha, no passado, favorecido o contributo dos homens
mais do que o das mulheres? Eu apenas posso relatar aquilo que sei e aquilo
que já presenciei: A Igreja Anglicana tem ordenado mulheres para o sacerdócio
desde 1994. Outras Igrejas, as chamadas ‘livres’ ou igrejas protestantes não integradas na Igreja Anglicana, já ordenam mulheres para o ministério, no
Reino Unido, desde 1917, antes das mulheres poderem votar. Dispomos agora
de provas documentais que nos podem ajudar a avaliar o contributo das
mulheres para a vida das igrejas, quando estas conseguem adquirir uma voz
dentro de uma instituição masculina. Hão-de reparar que eu parto da premissa
que apenas as mulheres ordenadas é que podem contribuir plenamente para a
vida da igreja. Admito que não estejam de acordo comigo, mas eu mantenho que
as mulheres, e digo-o porque creio que assim tudo se torna mais evidente – e
nestas incluo as freiras, que dão um contributo muito especial, e as mulheres
leigas devotas – serão sempre vistas num papel auxiliar, até que o nosso
estatuto de igualdade como representantes de Cristo seja reconhecido
formalmente. É sobre isto que toda a discussão em torno das mulheres e em
torno da ordenação das mulheres, incide. Teremos nós um estatuto de igualdade
como representantes de Cristo ou serão apenas os homens que se podem
colocar no altar e representar Cristo? Se assim for, é uma coisa horrível porque
tal significa que apenas homens judeus, de 33 anos de idade podem estar no
altar. Porque então é uma espécie de determinismo biológico. Então não temos
dignidade.
Quando as primeiras mulheres foram ordenadas, tal como se passou com as
primeiras mulheres eleitas para o Parlamento ou as primeiras advogadas ou
médicas, elas pareciam que apenas iriam duplicar o sistema. Algumas das
minhas alunas, ainda hoje aspiram a usar camisas pretas, cabeção, fatos pretos
– não as posso criticar. Querem ser reconhecidas como padres. Mas é este
precisamente o problema. Aquelas pioneiras de que atrás eu falava, vestiam-se,
falavam e actuavam como homens e ficavam satisfeitas por serem incluídas no
discurso masculino. Havia quem afirmasse que elas apenas se teriam alistado
no clube dos homens. Creio que elas se sentiram penalizadas por esta
apreciação. Eu tenho tentado apoiá-las mesmo quando elas se assemelham a
pequenos bispos. Aquelas de nós que se encontram de fora não fazem ideia de
como é difícil para as mulheres se fazerem ouvir quando se integram numa
instituição inteiramente masculina. Por isso as perdoo, com toda a sinceridade.
E por isso a dor e a amargura acompanham o sentido da graça e da benção. E a
primeira mulher que foi ordenada na igreja anglicana teve que suportar muita dor
e amargura. É claro que ainda há espaços de que se encontram excluídas, é
claro que há homens que nem lhes querem tocar, é claro que há pessoas que
não querem receber a comunhão das mãos delas, como se elas estivessem de
alguma forma contaminadas. É horrível. Mas nos espaços onde são saudadas,
onde são acolhidas, estão a realizar um trabalho notável. Eu gosto imenso de as
ver, a passar nas ruas das cidades e das vilas. Gosto imenso de as ver na
televisão. Gosto imenso de as ver nos hospitais onde confortam as pessoas que
estão próximas da morte.
Agora que já existe uma massa crítica de mulheres ordenadas, não apenas uma,
não apenas cinco, mas várias centenas, agora que já atingimos o ponto de
viragem, nota-se uma mudança de espírito. O papel do padre está a ser
feminizado. O Reino Unido tem uma população de 56 milhões de pessoas.
Destes, 20 milhões afirmam-se como pertencendo à Igreja Anglicana, mas ao
domingo menos de um milhão vão à igreja. Cerca de 2 milhões de católicos vão à
missa aos domingos porque a nossa igreja insiste muito mais na prática
dominical. Quero dizer com isto que o ensino do catolicismo, o ensino do
cristianismo interessa apenas a uma minoria. As pessoas mais devotas no
Reino Unido são os muçulmanos. O segundo grupo a nível de devoção talvez
sejam os cristãos, talvez os judeus, talvez os sikhs, talvez os ba’hai, talvez todos
os que constituem as outras comunidades de fé.
Eu venho de um país, que devido à sua história colonial, tem agora que aceitar
ser completamente multi-racial, completamente multi-cultural. A Igreja Anglicana é
a igreja oficial, a Rainha é a chefe da igreja. Todos os dias o Parlamento abre os
seus trabalhos com orações mas noutros locais não há sinais religiosos, excepto
as igrejas em todas as localidades, em cada vila e aldeia onde talvez apenas 20
pessoas frequentem a igreja aos domingos. Quanto à Igreja Católica, muitas
mulheres na casa dos 40 anos estão a deixá-la, porque criaram os seus filhos e
consideram-se excluídas, consideram que a Igreja não quer aprender nada com
elas, e que não tem nada a dar-lhes. Quanto aos jovens é raro vê-los. Quanto às
religiosas, na minha ordem, quando eu entrei aos 17 anos, em 1964, havia 135
irmãs na nossa província. Agora há 85 e destas 6 têm menos de 60 anos. Por
isso estamos a falar de declino. Estamos a falar de uma completa mudança na
demografia da vida da Igreja, estamos a falar de seminários que estão vazios, de
vocações para o sacerdócio de homens que têm cerca de 30 ou 40 anos. Os
jovens não estão a entrar. Estamos a ver uma completa mudança na vida da
igreja católica no Reino Unido e respectiva participação. Mas na Universidade de
Cambridge, há 60 alunos no ‘College’ anglicano onde dou aulas, homens e
mulheres, 35 homens e 25 mulheres. Estão todos em formação para o
sacerdócio. O estudante mais novo tem 22 anos e o mais velho 39. Aí
encontramos vida, energia, saúde e bondade.
Ali as raparigas e os rapazes estão a aprender a trabalhar em conjunto e a
colaborar uns com os outros. Cada vez se torna mais evidente que os tabus que
afastavam as mulheres do altar são de origem humana e não divina. Portanto
está é uma história que se aplica a todas nós, e não apenas a algumas de nós –
ou seja, aquelas mulheres que têm vocação para o sacerdócio. Estou
constantemente a conhecer mulheres com esta vocação, entre mulheres
católicas também. Este ano, na Igreja Anglicana já foram ordenadas duas
mulheres que vieram da igreja católica, e que mudaram para poderem ser
ordenadas. Esta é a história de todas as mulheres que desejam falar com
autoridade a partir da sua própria experiência, mulheres que aspiram a partilhar o
seu poder e não exercê-lo sobre, acima e contra o poder e a autoridade dos
homens.
Por isso não me surpreende que a Dorothy L. Sayers, teóloga anglicana, autora
de romances policiais, que também escreveu alguns livros sobre as mulheres na
igreja, e que era conhecida nos anos 40 deste século, tenha escrito:
«Talvez não nos deva surpreender que foram as mulheres as primeiras a
estarem no presépio e as últimas a encontrarem-se na cruz. Nunca tinham
conhecido um homem como aquele – nunca tinha havia um homem como
aquele. Um profeta e um professor que nunca as admoestava, que nunca as
lisonjeava, adulava ou protegia, que não fazia graça incómoda acerca delas,
nunca as tratava com expressões de tipo ‘As mulheres, Deus nos acuda!’ Ou ‘As
senhoras, que Deus as abençoe!’; que repreendia sem expressões de vítima e
que as elogiava sem condescendência; que tomava a sério as suas perguntas e
os seus argumentos; que nunca estabelecia fronteiras para a sua esfera, que
nunca as pressionava para serem femininas ou gozava com elas por serem do
sexo feminino; que não tinha ressentimentos nem qualquer dignidade masculina
mal assumida a defender; que as respeitava tal como eram e comportava-se com
total naturalidade. Não há qualquer acto, qualquer sermão, qualquer parábola, em
todos os Evangelhos que reflicta algo sobre a perversidade feminina; ninguém
pode retirar das palavras e dos actos de Jesus que haveria algo de ‘esquisito’ na
natureza das mulheres.» (Dorothy S. Sayers, Are women human?, Grand Rapids,
Eerdmans, 1971).
A Dorothy L. Sayers nasceu em 1893. Era filha de um pastor anglicano. Formou-
se em línguas modernas em Oxford e traduziu A Divina Comédia de Dante. É um
exemplo de uma mulher que descobriu o som da sua própria voz e que tinha
gosto em usá-la. E usou bem a sua voz. Acabou a sua carreira como publicitária,
escrevendo anúncios. Foi ela a autora do célebre slogan da cerveja irlandesa da
marca Guiness: ‘Guiness is good for you. Mas também escreveu uma peça para
teatro maravilhosa, intitulada ‘Um homem nascido para ser rei’, Jesus, que foi
transmitido pela BBC em 1946. Foi a primeira vez que uma peça de teatro com
um tema religioso foi transmitido pela radio. Afirmei atrás que somos reféns do
destino quando vozes religiosas, sociais e políticas excluem a nossa própria voz.
Também há outros constrangimentos – de ordem económica, por exemplo. No
entanto, vejamos o que nos pode ajudar? Quais são os contributos específicos
que o século 20 prestou à vida das mulheres? Porque o século 20 foi um século
de grandes mudanças na vida das mulheres, na sociedade, na política, na
economia. Para começar, fomos para a escola, fomos para a universidade.
Obtivemos o sufrágio. Tivemos acesso à educação. As nossas aspirações e
expectativas mudaram. É evidente que a mecanização do trabalho doméstico nos
transformou a todas. Lembro-me de quando eu era criança e a minha mãe torcia
a roupa num aparelho e eu pus a minha mão junto ao rolo e observei a minha
mão a passar juntamente com uma toalha. De repente a minha mãe viu o que
estava a acontecer e assustou-se! Pessoas como a minha mãe já não têm que
utilizar aquele tipo de equipamento. No mundo ocidental, as mulheres já não
levam a roupa para lavar no rio, usando as pedras para bater na roupa e lavá-la. A
mecanização transformou as nossas vidas. Dispomos agora de mais tempo e
energia para se dedicarem a outras tarefas.
No mundo em desenvolvimento, o quadro é mais complexo. O chamado
progresso é contraditório quando arrasta consigo a pobreza e a SIDA. O que é
que a Igreja tem a dizer acerca da pobreza? O que é que a Igreja tem a dizer
acerca da SIDA? Mas uma das grandes bênçãos dos tempos presentes é que
pelo menos temos consciência do que é que se está a passar. Como é que
sabemos o que se está a passar na ndia ou na frica actualmente? Eu sou de
opinião que dois grandes eventos científicos ocorridos nos últimos 100 anos
transformaram as nossas vidas de forma revolucionária, e que alteraram a forma
como pensamos acerca do universo e acerca de nós próprios – o primeiro e
talvez o mais importante foi a ida à lua. Mudou a nossa perspectiva. Somos a
primeira geração que pode observa o planeta terra do lado de fora. Agora
sabemos que somos todos habitantes deste frágil berlinde de cor entre o azul e o
verde, suspenso no céu. Agora sabemos o que está em causa no meio ambiente,
a um nível que seria impensável para os nossos avós. Sabemos que somos um
planeta, uma terra, que eu ao tocar aqui na mesa estou a fazer ressonância em
todo o planeta. Sabemos que temos responsabilidades face ao próximo, e isto a
uma escala nunca vista.
Tudo isto é maravilhoso mas também é uma grande responsabilidade. O que
acontece às mulheres em Portugal diz-me respeito enquanto me encontro
sentada em frente ao meu computador em Cambridge. Até vos consigo ver
através da internet devido à revolução tecnológica global que se seguiu às
viagens à lua.
E o que dizer das outras grandes transformações científicas? Aquela que mais
tem afectado a vida das mulheres foi a invenção da pílula contraceptiva. Quer
estejamos a favor ou contra a pílula, quer estejamos envolvidas ou não em
planeamento familiar por métodos naturais, ou quer utilizemos métodos
contraceptivos artificiais, trata-se de uma invenção de fundo e que estabelece um
novo universo moral para as mulheres. Temos controle sobre a nossa própria
fertilidade e devido a isso as mulheres podem desejar viver uma vida no domínio
público de formas que eram impossíveis para as nossas mães e para as nossas
avós. Tudo isto opera mudanças. Não estou a tomar partido, não estou a dizer
que isto é bom ou mau, o que estou a dizer é que não podemos ignorar. A Igreja
tem que ter a consciência de que as mulheres, hoje em dia, querem sair para
trabalhos remunerados, querem ter influência fora da arena doméstica.
Durante demasiado tempo, os homens têm tido o controle sobre o corpo das
mulheres, sobre a fertilidade das mulheres, sobre as ideias e o pensamento das
mulheres. Eu estou a perder a paciência e sei que não sou a única que se revolta
contra a tremenda injustiça desta situação. Protesto quando as mulheres são
tratadas como se, de facto, não fossem bem seres humanos. Como se, de facto,
não podem ser verdadeiras representantes de Cristo. À beira do terceiro milénio
quero nele entrar apelando para o empoderamento das mulheres – que não têm
medo de apelar a Deus para que seja nossa testemunha. Precisamos de
igualdade – é muito simples, precisamos de igualdade, queremos ser
reconhecidas; merecemos ser aclamadas. Não é nada de especial, não pode
constituir um problema. Queremos simplesmente que se diga: ‘Demos graças a
Deus porque existem as mulheres’. As nossas vozes querem cantar a nova
cantiga de um novo século. Por isso eu quero afirmar: ‘oiçam-nos e aprendam
connosco em toda a nossa diversidade.’
Passando agora para a minha história pessoal, algumas notas apenas. Em 1992
acompanhei de perto todo o debate ocorrido na Igreja Anglicana e na sociedade
inglesa acerca da ordenação das mulheres. Estive presente na ordenação da
primeira mulher. Estive presente na primeira celebração eucarística que se
realizou no dia seguinte à ordenação. Estive presente durante o debate na
Câmara dos Comuns e na Câmara dos Lordes, porque dado que a Igreja
Anglicana é uma igreja oficial, foi necessário fazer aprovar legislação específica
nas duas câmaras. Já tinha ocasião de ouvir e ler todos os argumentos a favor e
contra. Alguns deles são triviais. Outros são bem importantes. Mas a questão
fulcral que se coloca é a seguinte: poderão as mulheres representar Jesus
Cristo?
Eu escrevi um livro sobre a ordenação das mulheres que me foi encomendado
pela minha editora. Escrevi esse livro em 1993. Em 1994 o Papa publicou um
documento intitulado ‘Sobre a reserva da ordenação sacerdotal apenas aos
homens’ – excluindo, portanto, as mulheres. Por sorte o meu livro ainda não tinha
saído da impressão embora já estive quase impresso e eu pedi ao editor para
acrescentar o texto integral do documento papal ao livro, o que ele fez. O livro foi
posto à venda com o título Woman at the Altar e durante três anos nada aconteceu
de especial. Depois, a Congregação para a Vida Religiosa, sediada na Santa Sé,
em Roma, no Vaticano, escreveu às superiores da ordem religiosa a que eu
pertencia, o Institute of the Blessed Virgin Mary, e perguntou-lhes se elas sabiam
que uma das religiosas tinha escrito o tal livro, e se tinha tido autorização delas
para o escrever. Elas responderam que o livro tinha sido escrito enquanto o
debate ainda estava aberto, ou seja antes da publicação do documento papal.
Cinco anos depois da publicação descobri que a editora norte-americana que
tinha lançado o livro nos Estados Unidos, e que era uma editora pertencente e
gerida por uma ordem de frades, tinha destruído os exemplares existentes em
armazém, em obediência às ordens do bispo da diocese. Disseram-me que os
livros tinham sido queimados. Destruídos pelo fogo, por ordem da Congregação
para a Doutrina da Fé.
Esta Congregação começou então a escrever cartas à Madre Superior Geral da
Ordem a que eu pertencia. Nessas cartas afirmavam que eu deveria ser forçada a
fazer uma declaração pública manifestando a minha concordância com dois dos
ensinamentos da Igreja, a saber a encíclica Humanae Vitae, acerca do controle
de nascimentos e o documento Ordinatae Sacerdotalis acerca das mulheres e o
sacramento da ordem. Eu recusei fazê-lo. Fi-lo porque considerei que este pedido
trivializava a sabedoria da tradição cristão ocidental. Devo dizer que no Reino
Unido eu sou conhecida e sem falsa modéstia o digo, respeitada, como
comentadora de assuntos religiosos na BBC e noutros meios de comunicação
social. Devo dizer também que me considero uma moderada, gosto de ouvir
todos os lados, coloco-me ao centro. No entanto, as pessoas do Vaticano
afirmavam o contrário. Mas tenho que dar graças a Deus pela Igreja que temos
em Inglaterra e no País de Gales porque o cardeal inglês, o cardela arcebispo de
Westminster, o cardeal Hume, chamou-me quando ouviu falar nesta história. Ele
está muito zangado com o facto de as pessoas no Vaticano não o terem
contactado, não se tinham dado ao trabalho de lhe perguntar que tipo de pessoa
era eu. Ele disse-me: ‘Lavinia, isto não tem nada a ver com obediência. Tem a ver
com justiça.’ Ele achava que era injusto pedirem-me para fazer uma declaração
pública pois nunca tinham pedido isto a outra pessoa.
A razão porque eu deixei a minha Ordem foi motivada também pelo seguinte: no
Natal de 1999 eu estava em Nova Iorque. Li no jornal The New York Times, no dia
27 de Dezembro, que no dia de Natal, 3 milhões de pessoas tinham ido a uma
igreja Católica, e isto só na cidade de Nova Iorque. Maravilhoso! Mas peço que
façam umas contas. Esses fiéis deram pelo menos 10 milhões de dolares na
colecta. Ainda bem. Agora reparem nas famílias que vão entrando na igreja no dia
de Natal, será que cada uma tem 17 filhos? O meu avô era um de 17 filhos. Nem
pensar. Têm dois filhos. Ou seja utilizam métodos contraceptivos. Mas como
também dão dinheiro à Igreja, esta já não os quer chamar heréticos. Se
escrevermos um livro, contudo, a atitude que têm connosco já é diferente e o livro
até acaba queimado. Eis a ironia. Eu não sou uma inimiga da Igreja Católica. Eu
gosto muito da Igreja. Eu acredito com muita força que Deus gosta das mulheres.
Eu não me importo de oferecer a minha vida por esta convicção – de que Deus
gosta das mulheres. Espero não ter que dar a minha vida por esta causa, já basta
terem queimado o meu livro. Obrigada.
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