Textos de Luiz Alberto Gómez de Sousa
Sociólogo e Diretor do Centro de Altos Estudos em Ciência e religião - Univ. Candido Mendes
Um véu de integrismo e fundamentalismo ameaça o mundo pluralista de hoje
No primeiro dia da visita do papa escrevi um texto criticando a unilateralidade da mídia, que até melhorou nos dias subseqüentes. Mas ao final da visita, o questionamento virou-se para minha própria Igreja. A estadia do papa provocou emoções no mundo católico, como os aiatolás mobilizam multidões muçulmanas. Mas e os não católicos? Afinal, neste país, católicos realmente praticantes são uma minoria. Somos uma sociedade plural, com muitos católicos nominais, um número crescente de evangélicos, um número maior das religiões afro do que as estatísticas indicam, uma forte corrente espírita, outras religiões ameríndias ou asiáticas, os sem religião, etc. Aliás, o papa disse que não se podia convencer por imposição, mas pelo testemunho.
Como católico, fiquei vendo na televisão uma manifestação asfixiante de poder eclesiástico, vestes aparatosas, declarações contundentes. Tudo isso convencendo e, talvez, fortalecendo emocionalmente os já convencidos. Confesso que me senti bastante incômodo.
Meu primeiro texto ainda era esperançoso, mas depois de um dia respondendo por telefone a entrevistas de jornais, revistas e tvs, e vendo a mídia ocupada por um papa categórico, foi subindo um cansaço pelas afirmações petrificadas e as certezas sem reticências, mais perto dos guardiães do templo, do que de um Jesus que não ditava orientações, porém conversava com os menos respeitados, fazia perguntas e contava historinhas – parábolas. O papa começou tímido, mas o sorriso foi se abrindo aos poucos, influenciado pelo clima dos católicos arrebatados, especialmente no encontro com ex-drogados, um dos poucos momentos de humanidade. Porém no sentido contrário, os pronunciamentos, por exemplo, aos bispos brasileiros, foram se fazendo mais inflexíveis. Minha mulher e eu fomos respirar e ver “A alma imoral”, com texto do rabino Nilton Bonder e interpretação fantástica de Clarice Niskier. Ali as certezas pétreas se dissolviam em vida e ternura, em dúvidas revigorantes, no rompimento de uma razão fechada nela mesma. Como seria bom se a Fé convivesse com esse clima de liberdade e de ousadia!
Por outra parte, do outro lado do mundo, mais de um milhão de turcos saíram à rua para defender um estado secular, livre de um governo islâmico fundamentalista. Ali os cristãos torcem para evitar o perigo. O patriarca cristão de Constantinopla, o segundo em dignidade depois do bispo de Roma, acuado no seu bairro pobre do Fanar, teria ainda menos liberdade num estado islâmico.
E aqui, os não católicos não terão razão de temer as investidas velhas de pedidos de acordos ou de caducas concordatas? O Papa falou de um “sadio” laicismo. Quais suas fronteiras? Por que pespegar um adjetivo vago e ambíguo? Por que não dizer que uma sociedade laica e plural é mais favorável à exemplaridade do Evangelho? O papa indicou a necessidade de criar consensos em torno a uma sociedade menos desigual e com estruturas justas. Mas consensos com quem? Consenso conosco mesmos é um solipsismo que não se agüenta em pé. Para criar consensos há que estar aberto e ouvir os outros. Não se trata de negar nossa identidade, que deve ser afirmada sem medos mas esta, enrijecida, vira fundamentalismo, ou na nossa linguagem, integrismo.
O Papa convoca os chamados leigos – porque não dizer os cristãos em geral? – a construir uma nova sociedade. Mas para isso são necessárias as mediações – movimentos sociais e culturais, opções de idéias, partidos. Tirando-lhes importância o que nos sobra? Simples argumentos éticos, uma cruzada de consciências ou reviver uma cristandade? Estou de acordo com a crítica a ideologias – como expressão de falsa consciência –, sejam as velhas ideologias de um marxismo que encolheu em idéias abstratas e experiências sufocantes, seja de um capitalismo que destila o que pensam e fazem as elites acuadas e iníquas. Mas então, qual seria a saída? De nenhuma maneira uma ideologia social-cristã, que historicamente também fracassou, resvalando para a direita liberal, ou para uma esquerda cristã de que sempre desconfiei. No Chile, nos anos sessenta, eu dizia que porque tinha Fé não podia ser ideologicamente democrata-cristão - ou socialista cristão-, encolhendo a Fé em ideologia. Isso aprendera com Emmanuel Mounier, em seu livro “A cristandade morta”. Porém o cristão, iluminado pela Fé, tem de procurar com outros, respostas concretas. Uma nova sociedade exige colar-se na realidade, a partir de análises, para chegar a programas, idéias e práticas novas. Mas se dissermos que o real só nós o possuímos, em Deus e em seu filho Jesus, de saída fechamos o diálogo, já que temos a solução no bolso. Para os possíveis interlocutores não deixaria de ser prova de arrogância e de falta de abertura à diferença. O discurso do papa, na inauguração da conferência dos bispos, muito bem encadeado e com aparentes perguntas, na verdade foi um desdobramento de respostas e de certezas asfixiantes para um diálogo e para a busca de consensos.
A começar por afirmações terríveis sobre a história do encontro das culturas na América, ocultando o conflito e a imposição do cristianismo pela espada e pela cruz. Como uma certa leitura das cruzadas, vistas do lado de cá, apenas como defesa solícita dos lugares sagrados. Um papa que virou santo, Pio V, perto daqueles tempos da conquista da América, chegou a dizer, justificando a inquisição, que matar hereges podia ser um ato de defesa da fé. Hoje temos vergonha de uma afirmação destas. Em alguns anos teremos pudor de algumas declarações que ouvimos agora?
A imprensa e alguns comentaristas disseram tolices, como que a crítica ao marxismo era interpretada como uma crítica à teologia da libertação. Essa reflexão latino-americana, que se abre a muitas dimensões e com novos participantes, se às vezes usou parcialmente mediações da teoria marxista, há muito as relativizou, descobrindo sua unilateralidade e limitações. Entretanto, essa teologia tem no seu cerne a opção preferencial pelos pobres, que segundo o mesmo papa é central na vida de Fé. Eu diria que aí ele confirmou, querendo ou não, a caminhada de uma Igreja da libertação, com suas pastorais sociais e suas comunidades eclesiais de base. Mas ao mesmo tempo, não pronunciou nem uma só palavra sobre elas, apenas fazendo a menção indireta de novos movimentos, que vão em outras direções.
Há uma contradição que dificilmente se mantém em pé. Ao afirmar a centralidade da Eucaristia, fica claro que a Igreja precisa de muitos espaços de celebração eucarística. Mas isso será impossível mantendo apenas a figura cada vez mais minoritária e marginal, no mundo de hoje, do sacerdote obrigatoriamente celibatário, que o papa magnifica a seguir. Faz logo adiante um apelo voluntarista a vocações para entrar nessa mesma fôrma, historicamente em crise, ou produzindo um novo clero conservador, inseguro e meio deslocado do mundo. Multiplicar a Eucaristia é multiplicar seus ministros e ministras, para isso ordenando cristãos e cristãs das próprias comunidades. O celibato obrigatório está mais ligado à vida consagrada do que à categoria dos presbíteros, que presidem a celebração eucarística. Mais e mais bispos e cristãos dizem isso em voz baixa, num sussurro que vai aumentando, mas que é ainda abafado por censuras e auto-censuras. Novos pontificados ou novos concílios terão que tratar corajosamente deste e de outros pontos ainda congelados (celibato obrigatório, a mulher na Igreja, reprodução e sexualidade, diálogo interreligioso, etc.)
Para isso há que enfrentar a esquizofrenia entre uma doutrina da sexualidade e da reprodução, em discordância crescente com a prática real dos católicos, no que Pietro Prini chama um “scisma sommerso”. O cardeal Newman, que esse papa admira, falava do desenvolvimento da doutrina. Em tantos campos, até agora bloqueados para uma discussão serena e corajosa, não se trata de negar dogmas, que são muito menos do que alguns crêem, mas de rever regulamentações historicamente datadas e passíveis de mudanças. Com isso não quero dizer que a prática determina a doutrina, o que seria uma posição preguiçosa ou oportunista, mas ela a questiona com novas perguntas que exigem novas respostas. Repetir o de sempre é encerrar-se num mundo que está morrendo.
Fica também no ar um clima integrista, uma adesão quase idolátrica à figura do bispo de Roma, que só pode ferir nossos irmãos cristãos não católicos e fazer sorrir quem vêm de outras tradições religiosas ou quem não as têm.
Jesus, um rabi que várias vezes se escondeu quando o queriam mitificar ou coroar, dava como exemplo de Caridade, não o sacerdote apressado que corria ao templo para cumprir seus deveres de profissional da religião, mas o samaritano heterodoxo, que não ia a Jerusalém, mas ao monte Garizim. Também se detinha para falar, à beira do poço, com outra samaritana, que tivera muitos homens em sua vida, e que poderia ser chamada por muitos de hedonista ou dissoluta. Os discípulos se escandalizaram. Os seguidores de hoje se esquecem disso.
Trago aqui o desabafo melancólico e triste de um católico que faz um balanço de tantos dias de triunfalismo, fechamento ao diálogo e alinhamento com fundamentalismos que apenas sabemos ver nos outros. Assim, não se visibiliza uma Boa Nova, mas se repetem prescrições rígidas saídas de manuais de uma catequese voltada para dentro. E depois, os católicos nos queixamos da diminuição dos fiéis – ou ficamos em manifestações que revelam um emocionalismo aeróbico, que tem muito pouco a ver com a Fé em Jesus Cristo, mesmo se Marcelo Rossi foi posto de lado por uns dias.
Não tivemos atitudes duras como as de João Paulo II na declaração de abertura da conferência em Puebla que, aliás, os bispos não seguiram nas discussões subseqüentes. Mas diante de um discurso bem articulado como o de Bento XVI é mais difícil, em Aparecida, uma posição crítica dos bispos, pois envolve por sua lógica e se torna mais complexo descobrir ali os pontos frágeis e contraditórios.
Teria sido muito bom ter ouvido alguém aberto a escutar, trazendo misericórdia e com-paixão, e não uma reflexão bem armada de um teólogo europeu, com seu discurso tradicional, aberto ao diálogo com a academia ou com Habermas, mas não com as comunidades latino-americanas, com seus pobres, índios, negros, cada vez mais protagonistas na história social e política. Não senti um papa de todos, pronto realmente – não teoricamente – a criar consensos, ao desafio de novas culturas e de novas sensibilidades, ele que poderia parecer atento às cultura de hoje. Não que tivesse que aceitar passivamente o que o mundo diz, mas uma visão pessimista desse mundo o vê unilateralmente marcado pelo individualismo ou pelo hedonismo. Há que estar aberto ao pluralismo das diferenças, e não ter medo do que há de prazeroso na busca de ser feliz – tão longe dos complexos culposos de uma espiritualidade ainda marcada pelo medo, por um jansenismo que paira no ar, e um agostinismo mal digerido.
A Igreja precisa hoje não só de profetas, de místicos, de mártires e de santos, e penso em Hélder Câmara ou Romero, mas de um testemunho coletivo de humildade e de simplicidade, para saber conviver com a alteridade e aí apresentar a Boa Nova, na construção plural, com os outros, de um mundo sem injustiças e sem desigualdades escandalosas. O que dirá a conferência de Aparecida? Seguirá mecanicamente e sem um discernimento adulto os passos indicados por Bento XVI ou saberá também ouvir o consensus fidelium de suas igrejas locais, como mostrou Newman em outra fase crítica da Igreja, no século IV? Assim poderá abrir-se à construção, na linha de João XXIII, de um consenso com outros homens e mulheres de boa-vontade, que realmente responda às necessidades e aos anseios de liberdade, de qualidade de vida e de felicidade, num mundo ao mesmo tempo rodeado de desigualdades, fundamentalismos, violências, fanatismos e ameaças ao próprio planeta.
Simplesmente cristão
Os últimos documentos de Bento XVI e da Congregação da Doutrina me causaram uma certa dificuldade, por uns dias, de escrever a respeito. Não por receio, mas para deixar passar um momento de indignação que não colaborava na lucidez. Houve recentemente um encontro ecumênico de teólogos em Belo Horizonte. Não consegui saber o que foi dito ali a respeito, especialmente pelos católicos. Há uma auto-censura em muitos, até certo ponto justificável, por receio de perderem licença para ensinar em estabelecimentos católicos, onde cumprem papel fundamental. A culpa é basicamente da estrutura eclesiástica. No tempo da ditadura muitos se calaram para poder ficar no país, mas graças a isso puderam, no underground, trabalhar pela abertura. Então, compete a nós, leigos livres, falar claramente, “oportuna e inoportunamente”, como pediu Paulo.
O cardeal Newman escreveu que, no século IV, tempo em que o arianismo ganhava terreno, a maioria dos bispos era dessa tendência e o próprio Papa Libério estava na corda bamba 1. A Igreja foi salva pelo “consenso dos fiéis”. O Padre Congar, citando o texto, acrescentou: “e pela ação dos teólogos”2. Hoje nos perguntamos: quais os que irão se manifestando hoje? Alguns, é claro. Leonardo Boff respondeu contundente: “Quem subverte o concílio: L.Boff ou o cardeal J. Ratzinger?3 Meu querido irmão Marcelo Barros, depois da Dominus Jesus, enviou carta a seu irmão João Paulo (irmão sim, “servo dos servos”, não tanto supremo pontífice, titulo de origem pagã) e foi fortemente criticado pela presidência da CNBB. Teremos entre nós, em pouco tempo, Hans Küng. Vejamos o que terá a dizer.
Faz alguns anos, o grande e saudoso teólogo uruguaio Juan Luis Segundo, escreveu uma “resposta ao cardeal Ratzinger”. Desocultou o caráter ideológico de uma teologia norte-européia. E no fim disse: “Nessa luta mortal, conduzida com uma grande dose de ressentimento ou, talvez melhor, por uma teologia dependente de uma política sem esperança, nós os latino-americanos não conseguimos reconhecer nossa realidade, nem mesmo a realidade européia que sustenta ... o documento ( primeira Instrução Ratzinger sobre a teologia da libertação).4
Tenho certeza de que, em voz baixa, muitos bispos e teólogos discordam dos últimos textos sobre o latim e a exclusividade da Igreja romana. O bispo francês Jacques Gaillot, que perdeu sua diocese de Evreux e criou a diocese virtual de Partenia, escreveu um livro com o título: “O mundo grita, a Igreja sussurra”5.
Não cabe agora ficar apenas na exegese dos textos, para salvar esta ou aquela expressão, tentando minorar os estragos. Quero unir-me ao clima de mal-estar e de escândalo de outras Igrejas (Igrejas sim). Os caminhos ecumênicos foram sabotados e com eles também os do diálogo inter-religioso. O Papa disse no Brasil que só possui a verdade plena quem crê em Deus e em Jesus Cristo. E agora completa: a Igreja católica tem propriedade privada da verdade. Estamos nos aproximando perigosamente de uma antiga expressão hoje descartada:”fora da Igreja católica não há salvação”. Como Leonardo Boff provou, vamos regredindo para antes do Vaticano II e do clima que o bom Papa João criou ao convocar um concílio que, em sua intenção original, tinha por missão procurar a unidade cristã.
Quem se afastou da Igreja, depois do Vaticano II, foram os tradicionalistas conservadores. Mas com eles, este Papa demonstrou enorme misericórdia. Esta última palavra tem, no final, o significado de coração. Talvez para eles penda o coração de Ratzinger. Faltou misericórdia diante de Jon Sobrino, com uma cristologia tão legítima como a do teólogo Ratzinger, que até escreveu um livro a respeito, “não como papa, mas como teólogo”6. Quão longe estamos do coração de João XXIII!
O cardeal Newman, depois do Vaticano I, disse em carta: “Pio (Pio IX, que poderia ser hoje Bento, ou João Paulo) não é o último dos papas. Um outro papa e outro concílio polirão a obra”7. E falou, em outro texto célebre, do desenvolvimento da doutrina na história, hoje congelada com relação aos temas do ministério ordenado (para mulheres e pessoas casadas), da sexualidade e da reprodução, do celibato optativo, etc. Aliás, o cardeal Ratzinger, há um tempo atrás, expressou em artigo sua admiração por Newman.
Tivemos, no começo do século XX, um papa simples e de inteligência limitada, Pio X, que até virou santo, que sob a orientação do cardeal espanhol Merry del Val, fechou a Igreja à modernidade. E surgiu uma sociedade secreta integrista, Sodalitium Pianum, com tendência inquisitorial. Depois dele veio Bento XV, que desbloqueou o tema, dissolveu a sociedade e desterrou seu chefe, Benigni. Aliás, o cardeal Dalla Chiesa, naquele momento o novo papa, descobriu, na correspondência lacrada de seu predecessor que, pouco antes, fora denunciado também como modernista. João Paulo II novamente enrijeceu na teologia. Só que seu conselheiro e orientador, no começo do século seguinte, ao contrário do caso anterior, tornou-se seu sucessor, com o nome de Bento XVI, na contra mão do outro Bento. Antes Leão XIII tinha deixado de lado, em boa parte, o Syllabus anti-moderno de Pio IX. E João XXIII, falando de uma “inesperada primavera” (1960), liberou os melhores teólogos de seu tempo, calados pela Humani Generis de Pio XII (1950). Agora que estamos num novo inverno8, o que virá pela frente? Precisamos viver sempre nesta gangorra inquietante e corrosiva?
Como membro do “povo de Deus” (Vaticano II) quero ajudar, de meu canto, a preparar o concílio Jerusalém II com que sonhou D.Hélder Câmara. Jerusalém I quebrou o gueto da Igreja dos circuncisos, pela força de Paulo e, depois de uma hesitação, de Pedro, contrariando Tiago, “irmão” de Jesus (ler Atos dos Apóstolos, cap. 15). Agora, pretende-se construir um novo gueto romano. No meu caso, sigo dentro da Igreja Católica Romana, para mim, tradicional e historicamente a mais plena, com amor e impaciência filial, mas me recuso a falar em voz baixa. Em muitos automóveis se lê: “Tenho orgulho de ser católico”. Chega de arrogância e de triunfalismo, no momento em que a Igreja romana, nos Estados Unidos, se dessangra financeiramente, pela pedofilia de numerosos sacerdotes. O celibato obrigatório produziu em muitos uma sexualidade doentia e criminosa.9
Se me perguntarem o que sou, responderei: “sou Cristão, membro de uma das várias denominações cristãs, que deveriam e deverão buscar a unidade”. Dom Mauro Morelli se declarou bispo cristão de confissão católico-romana. A Igreja una e santa é a Igreja Cristã; esta igreja, hoje em estilhaços, é também pecadora, “sancta et meretrix”, como diziam os Padres dos primeiros séculos. Quero dar este testemunho aos irmãos imprecisamente chamados de separados e dizer, de dentro de minha Igreja, que esta deveria estar “semper reformanda”, não importando quem foi o autor da expressão.
O filme Coeurs (há que ter corações com misericórdia), foi traduzido assim: “Medos privados em lugares públicos”. Afastemos esses medos miúdos (la petite peur de Mounier),10 para dizer no recinto público de minha Igreja: como cristão, não posso deixar cair a luta pelo ecumenismo e pelo diálogo inter-religioso.
Hans Küng no Brasil.
Hans Küng é um dos maiores teólogos cristãos da atualidade, valente, ousado, homem de fé e de espiritualidade fortes. Seu giro por várias cidades do Brasil foi um triunfo, com auditórios cheios. Aqui no Rio, foi recebido pela Universidade Candido Mendes, graças ao seu Reitor Candido Mendes, em seu Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião, que dirijo, e pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, no auditório da UCAM, rua da Assembléia 10. Ali, centenas de pessoas ouviram em absoluto silêncio sua fala em inglês, com tradução simultânea, de quase duas horas. A série de palestras começou na Universidade Unisinos, em São Leopoldo, dos jesuítas, e depois no Instituto Goethe em Porto Alegre, na Universidade Federal do Paraná, na Católica de Brasília (que não é pontifícia), na Câmara de Deputados, aqui no Rio e na Federal de Juiz de Fora, onde recebeu o título de Doutor Honoris Causa. As PUCs do país não puderam convidá-lo.
João XXIII o nomeou perito do Vaticano II; no pontificado seguinte, o ex-Santo Ofício de Ratzinger, de quem foi colega na Alemanha, o proibiu de ensinar teologia católica, por suas posições críticas diante da infalibilidade do Papa, do celibato obrigatório, em favor da ordenação de mulheres, propondo rever uma doutrina caduca sobre sexualidade e reprodução humana e abrir uma nova etapa no ecumenismo entre cristãos, assim como no diálogo inter-religioso com outras crenças. Escreveu grandes obras sobre o Islã, o Judaísmo e o Cristianismo. Passou a ensinar teologia ecumênica em Tubinga. Ao cumprir cinqüenta anos de sacerdote, escreveu um belo texto: Porque ser cristão hoje. Aposentado, está à frente de uma Fundação pela Paz. Durante suas palestras foram expostos, na entrada dos auditórios, doze painéis sobre uma ética da Paz. Dois temas em suas falas: Religião e Ciência, desde o big-bang, até a entropia e o big crush, com uma notável cultura e atualização científicas; e sua luta por um Ethos mundial para a paz entre os homens.
Lembra as sanções do Vaticano a Leonardo Boff. É tempo de reabrir temas congelados nos últimos anos na Igreja Católica, e sua lucidez será de grande ajuda. Talvez um outro concílio aproveitará seu discernimento. Quando o Vaticano I terminou de repente, pela queda de Roma com a unificação italiana, o grande teólogo inglês Newman , convertido e mal visto por Pio IX, mais tarde feito cardeal por Leão XIII, escreveu a um amigo: “Pio não é o último dos papas...Tenhamos paciência, um novo concílio e um novo papa polirão a obra”. Podemos aplicar esse texto aos dois últimos pontificados e então a reflexão lúcida e criativa de homens como o suíço Hans Küng, hoje chegando aos oitenta anos, abrirão novos caminhos para uma Igreja Católica que vive, como disse um teólogo brasileiro, um tempo de inverno. O bom papa João XXIII disse que o Vaticano II era “uma flor de inesperada primavera”. D. Hélder sonhou com um Jesusalém II (ver Atos dos Apóstolos sobre o primeiro, cap. 15). Entre 1962 e 1966, ele, Yvan Illich, o grande Alceu Amoroso Lima e eu, no ardor da minha juventude, sonhamos com um Vaticano III. Hans Küng abre caminhos, na profecia dos teólogos, sem medo ou auto-censura.
Endereço do autor;
Rua das Laranjeiras 525/1002
22240-005 Rio de Janeiro RJ
gomezdesouza@uol.com.br
[ Enviar este texto ]