A IGREJA E OS SEUS MEDOS
José Lima
Nós Somos Igreja
Renovar para sobreviver. Este poderia ser muito bem o lema de todo ser humano,
das instituições que desejam manter-se vivas e actuantes na sociedade. A Igreja
é uma delas. Mas porque razão existem pessoas, bem como, instituições que
teimam em não se renovar? Porque razão a Igreja, uma das instituições mais
antigas na sociedade, teima em marcar passo em temas tão caros como: a sua
renovação, uma certa “democratização” de acesso a cargos exclusivo de alguns,
ordenação das mulheres, opção livre pelo casamento por parte do clero, etc.
Produzindo, tantas vezes, um discurso aberto à mudança e à renovação mas
sempre parco nas acções e na concretização desses ideais.
Podermos apontar diversas causas, a mais importante, sem dúvida e, que “mina”
todo tipo de relação e decisão é o medo. É natural, sempre que haja mudanças
surja o medo e o receio. A mudança apela para a insegurança, leva-nos para
territórios desconhecidos e, a encarar novos desafios.
Todos temos a experiência de que o medo paralisa, cristaliza as nossas
decisões. O medo tem paralisado, adiado algumas decisões importantes dentro
da estrutura eclesial para que esta possa ser um veículo eficaz na transmissão
da mensagem que a justifica. No ano em comemoramos o quadragésimo
aniversário do início do Concilio Vaticano II e, onde já se pede outro concílio, julgo
que ainda não “digerimos” uma ideia central do Concílio, a ideia de comunhão.
Estamos longe da sua concretização porque, a meu ver, a estrutura actual da
Igreja emperra, dinamita, a transformação de um modelo organizacional
piramidal centrado em Roma, para um modelo de circular e de comunhão
participativa. Por outras palavras, nega-se a descentralização, o reforço de
autonomia das igrejas particulares, das conferencias episcopais, e acarinha-se,
cada vez mais, o centralismo da cúria romana.
Sem alguma ruptura a Igreja arrisca-se a caminhar sob águas estagnadas
resolvendo os problemas do dia-a-dia mas, sem perspectiva ou projecto a longo
prazo. Nesta medida, o medo leva a igreja a que esteja perdia em relação ao seu
futuro. Perdida, no sentido, do receio de “fazer-se ao largo” procurando redefinir o
seu rumo e percorrer novas águas.
Existe outro vector importante que marca esta estagnação: o receio de perder
poder. Há uma organização e poderes “instalados” que não deseja perder a sua
influencia nas sociedades e órgãos de decisão. O que leva a manter o sistema
actual de estrutura. Ficamos, muitas vezes, com a sensação de que é mais
importante os peitorais de prata que os corações humildes, a cor de purpura que
a luz da ressurreição.
O medo tende para a defesa do que temos e o que temos é uma estrutura que é
bem mais importante que a mensagem carismática. Não poderemos esquecer
que a estrutura é o meio para que o ethos carismático de Cristo seja transmitido
mas, de maneira nenhuma poderemos transformar os meios em fins.
A pluralidade de opiniões, dentro da Igreja, pode levar à ruptura de um grande
filamento que é a sua catolicidade. A Igreja tem consciência disso, por isso,
prefere deixar passar o tempo e os seus sinais. Prefere “calar” vozes dissonantes
ou remetê-las para o esquecimento. O que não deixa de ser um grave erro. Ela
não pode ir reboque dos acontecimentos, como bem demonstra a questão da
pedófilia, tem de ser profética e antecipativa, em vez, de uma posição de
expectativa e passiva.
A frase do Evangelho e tão acarinhada por João Paulo II “Não temais medo”,
contradiz este manto que tudo cobre anestesiando os impulsos para a mudança.
É caso para perguntar: Igreja onde está a tua fé ? (Lc 8, 25).
Finalmente, sabe-se que debaixo do discurso oficial da Igreja existe um subsolo
cheio de opiniões individuais (mesmo de bispos) estimulando à mudança e a
uma abertura em diversos temas. O movimento “Nós somos Igreja” tem esta
nobre função, dentro da Igreja, de ajudar a contemplar a realidade e as mutações
humanas de uma forma mais ampla e aberta, para que o Evangelho se torne
mais encarnado. É certo, que a comunidade eclesial possui potencialidades,
esperanças e dons do Espírito mas, seria uma pena que pequenos “grãos de
areia” continuassem a dificultar uma visão mais optimista e mais bela.
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