Entrevista a Myra Poole



Myra Poole esteve em Lisboa. Entrevista de António Marujo no Público

Teóloga inglesa responsabiliza bispos

O que se está a passar com os casos de pedofilia entre membros do clero é da responsabilidade das lideranças católicas - dos bispos, no caso. A acusação é da teóloga e freira católica Myra Poole, que anteontem à noite fez uma conferência em Lisboa sobre Deus, Mulheres e a Igreja.

"Não coloco o problema no celibato" dos padres, disse Myra Poole ao PBLICO, no final da conferência.

Esta religiosa, envolvida há muitos anos em movimentos de defesa da ordenação de mulheres, cita o teólogo alemão Hans Küng, que defendeu a abolição do celibato obrigatório por causa dos abusos sexuais. "Küng está errado; a pedofilia pode estar disseminada entre homens casados", afirma Myra Poole, que nem sequer culpa os padres pedófilos, que em muitos casos "precisavam de ajuda".

"Culpo os líderes, que deviam saber mais." A situação saiu "muitas vezes de controlo" e os bispos "limitavam-se a mudar os padres de paróquia". Por isso, Myra Poole responsabilizará "sempre" os bispos.

Para a teóloga, a possibilidade de as mulheres serem ordenadas pode ajudar a resolver estes casos. "As mulheres farão sempre diferente" e a Igreja precisa de uma moralidade que tenha em conta também a perspectiva feminina, acrescenta.

Na conferência, promovida pelo movimento Nós Somos Igreja, Poole contou a história do moderno movimento de defesa de ordenação das mulheres e da sua própria adesão a esta perspectiva. Um movimento que tem sido olhado com muita desconfiança pelo Vaticano.

Myra Poole recorda que participou, em 2001, com uma outra teóloga inglesa, a religiosa beneditina Joan Chittister, na conferência internacional do Women"s Ordination Worldwide (WOW), realizada em Dublin. Várias cartas do Vaticano pressionaram as responsáveis das respectivas congregações para que as duas religiosas não participassem. Ambas foram, sem consequências.

"O conceito de uma Igreja que tudo controla está acabado", afirmou. "Estamos à beira de uma nova reforma das igrejas", disse.

E, sobre a relação das mulheres com a Igreja, citou o livro Journeys by Heart: a Christology of Erotic Power, que fala de uma Igreja que "acalentou e feriu". Para acrescentar: "Qualquer discurso sobre mulheres e Igreja tem de ter isto em conta. (...) Acredito que a luta das mulheres para se afirmarem perante Deus (...) está a chegar a um ponto crítico. Estamos a emergir de séculos de combate, a idade das trevas das mulheres em todas as igrejas, para a nossa própria luz e força espirituais."
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