AS MULHERES E O CRISTIANISMO
Ana Vicente
Investigadora
A reflexão sobre o 11 de Setembro enfoca necessariamente a situação das
mulheres nos sistemas religiosos e embora sejamos tentadas a olhar apenas
para o islamismo eu gostaria sobretudo de considerar o cristianismo. Por isso
gostaria de partilhar com as leitoras e os leitores algumas ideias, dado que se
torna evidente que a ideologia que presidiu a esses actos criminosos combate
ferozmente os direitos humanos das mulheres, não as considerando como
pessoas de parte inteira.
Também por esta razão torna-se imperioso que os líderes religiosos e
nomeadamente os cristãos afirmem e pratiquem a igualdade intrínseca de todos
os seres humanos, mulheres e homens, por fidelidade à mensagem de Jesus
Cristo. Acrescentarei que sou crente de fé católica romana. Cresci numa casa
onde quer o meu pai quer a minha mãe eram convictamente católicos praticantes.
Fui preparada com todo o cuidado para receber os sacramentos da confissão,
comunhão e crisma da Igreja.
Pertenci a várias organizações católicas e tive ainda a experiência de viver dois
anos num colégio interno em Inglaterra, pertencente a uma ordem religiosa
católica, fundada no século XVII por uma inglesa, Mary Ward (1585-1645), que
considerava que as raparigas deviam receber uma educação de qualidade. Mais
tarde completei um curso superior de cultura religiosa, com três anos de duração.
Além disso, a gratificação da relação com Deus, a tentativa de corresponder aos
desafios de Jesus Cristo, o prazer intelectual, estético e espiritual proporcionado
pela cultura cristã, seja com a leitura de Santa Teresa de Ávila, de Thomas Merton
ou pela visão da imensidade das obras artísticas, móveis e imóveis, modernas
ou antigas, espalhadas pelo mundo, têm preenchido a minha vida.
Servem estas palavras para explicar que o factor religioso sempre me interessou
e me facultou plenitude.
A questão do lugar e da função atribuídos às mulheres e aos homens no
cristianismo, no passado e no presente, é matéria que tem sido objecto de
numerosos estudos, tomadas de decisão e sinais de mudança ou de resistência.
Considero ser esta uma das últimas áreas onde a vivência da igualdade e a
afirmação do poder das mulheres será mais difícil de atingir, o que não deixa de
ser contraditório com a função de procura de transcendência, de perfeição e de
tolerância a que apela o cristianismo. No momento actual da História, várias
Igrejas cristãs já avançaram num melhor entendimento da mensagem
profundamente igualitária de Jesus Cristo, abrindo todos os seus ministérios e a
sua pastoral a ambos os sexos. Os primeiros a fazê-lo foram os
congregacionistas, nos Estados Unidos, quando, em 1853, Antonette Brown foi
ordenada. Na Europa, foram os luteranos, na Alemanha, nos anos 1920.
Um outro marco fundamental deste processo foi a aprovação da ordenação de
mulheres, em 11 de Novembro de 1992, por parte do Sínodo Geral da Igreja
Anglicana, no Reino Unido, composto de leigos, sacerdotes e bispos (384 votos a
favor e 169 contra). Esta decisão foi defendida com firmeza, entre muitos, pelo
arcebispo de Cantuária, George Carey. Afirmou, para responder às vozes que se
opunham: «Deus chama-nos para tomarmos um risco de fé. Creio que Deus
pede à sua Igreja para ordenar mulheres como sacerdotes. A Igreja arrisca-se a
não ser ouvida se as mulheres puderem exercer a sua autoridade em todos os
domínios da vida social excepto na vida eclesial». As primeiras foram ordenadas
em 12 de Março de 1994, de entre as 1400 diaconisas daquela Igreja. Judith
Rose, diaconisa, declarou: «Acredito que Deus, ao fazer-me mulher, não cometeu
nenhum erro. Assim como acredito que me chamou para o sacerdócio».
É extremamente curioso, passados alguns anos, ler as múltiplas notícias da
imprensa britânica sobre esta decisão. O alarme era geral. Iria haver cisma, com
toda a certeza. Parecia que as mulheres eram uns seres pestilentos,
demoníacos, capazes, no mínimo, de voluntaria e gratuitamente destruir o bem-
estar de milhões de consciências e de almas. O arcaísmo dos raciocínios e das
posturas é, de facto, bem elucidativo de como é difícil fazer emergir o evidente. A
Igreja Metodista inglesa, a segunda maior a seguir à Anglicana, já tem pastoras
há mais de 30 anos. Em 1993 foi ordenada a primeira portuguesa desta Igreja,
Miriam Lopes Valente.
Uma parte da hierarquia da Igreja Católica Romana, e do Papa, sua autoridade
máxima, recusa o sacramento da ordem às mulheres, porque ainda não tiraram
as devidas consequências da igualdade fundamental que existe entre mulheres e
homens. Contudo, estudos de diversa índole, a vivência quotidiana da Igreja
Católica, e ainda a actuação de alguns movimentos católicos, revelam que uma
parte considerável da Igreja, ou seja, os seus fiéis, homens e mulheres, o povo
de Deus, de acordo com a teologia cristã, gostaria de viver a sua fé de uma outra
forma. Ou seja, com a possibilidade de cada ser humano, independentemente de
ter nascido mulher ou homem, colocar os seus talentos e capacidades ao serviço
do próximo. Em 1997 foi divulgado um estudo sobre «Os Leigos e a Reforma na
Igreja» realizado entre católicos na Alemanha, Espanha, Irlanda, EUA, Itália,
Polónia e Filipinas. A pergunta «Estaria a favor ou contra que o próximo Papa
autorizasse a ordenação sacerdotal das mulheres?», colheu as seguintes
percentagens de respostas favoráveis na Alemanha (71%), Espanha (71%),
Irlanda (67%), EUA (65%), Itália (58%), Polónia (24%) e Filipinas (18%). A mesma
questão foi colocada a uma amostra representativa de católicos em Portugal, em
1998, tendo 71% respondido favoravelmente.
Em diversos países, incluindo Portugal, existem movimentos católicos
organizados que pretendem a ordenação das mulheres. Na internet, mais de
1000 páginas organizadas pelo padre e teólogo católico John Wijngaards
abordam a questão.
Há um número crescente de obras de teologia que abordam o tema e no nosso
país uma teóloga portuguesa, Teresa Martinho Toldy, publicou a sua excelente
tese de doutoramento centrada na teologia feminista. Nenhuma corrente
teológica séria consegue hoje argumentar/justificar uma diferença ontológica, ou
seja, aquilo que é próprio do ser, entre mulheres e homens. Antes pelo contrário.
Uma das bases fulcrais da doutrina cristã propõe que todos, mulheres e homens,
somos criados à imagem e semelhança de Deus, que somos chamados a
cumprir os Seus mandamentos, e que todos somos chamados à salvação.
A moral cristã aplica-se a mulheres e a homens, de forma igual. Se cada um dos
sexos tivesse uma natureza distinta, tal não se poderia verificar. Sabemos que a
Igreja-instituição adoptou o sistema patriarcal que encontrou vigente no mundo
greco-romano e que, nas palavras de Aynard, «é imensa a perda de substância
evangélica que pode ser atribuída à atitude patriarcal da Igreja-instituição nos
últimos dezanove séculos.»
Contudo, nessa mesma igreja, as mulheres abriram espaços de afirmação e de
identidade, nomeadamente através das ordens religiosas femininas. Sobretudo a
partir do século XIX estas prestaram e continuam a prestar, em termos
quantitativos e qualitativos, uma imensidão de serviço ao próximo, em todas as
zonas do mundo, serviço esse que se mantém em grande medida invisível. De
acordo com o Anuário Católico, em Portugal havia em 1998, 6647 religiosas
professas e 4249 sacerdotes.
Uma teóloga católica, Anne Nasimiyu, afirmou numa entrevista dada ao jornalista
António Marujo: «Podemos dizer que no Norte ou no Sul, em todo o mundo, as
mulheres são a espinha dorsal da Igreja. Se se excluíssem as mulheres, a Igreja
cairia. A Igreja está viva por causa das mulheres. O único problema é que às
mulheres foi negada a participação nos processos de decisão da Igreja. (...) Eu
ainda tenho um problema com todo o sacerdócio, porque ele parece muitas vezes
uma espécie de privilégio para uma casta especial. Talvez seja necessário
repensar toda a instituição sacerdotal: é para o serviço, e para o serviço a quem,
ou é apenas uma administração, um funcionalismo, para dispensar alguns
sacramentos às pessoas. Penso que tem que ser um ministério para as
pessoas, um caminho com o povo, sofrendo com o povo. Eis como vejo o
sacerdócio, e como veria as mulheres a integrá-lo. Mas na situação que temos,
seria terrível que as mulheres fossem incluídas nesse clericalismo.»
Entretanto, a questão do sacerdócio das mulheres já foi objecto de várias
declarações da Santa Sé, rejeitando essa possibilidade. O primeiro desses
documentos, publicados nos tempos actuais, foi a Declaração sobre a Questão
da Admissão das Mulheres ao Sacerdócio Ministerial, emitida em 15 de Outubro
de 1976. A argumentação teológica utilizada é a tradicional e foi de imediato
contestada, nomeadamente pela Escola Jesuíta de Teologia de Berkeley, nos
EUA. O último data de 1994, e trata-se da Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis,
assinada pelo Papa João Paulo II, onde se conclui que «para que seja excluída
qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria
constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos
(cf. Lc. 22, 32) declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir
a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada
como definitiva por todos os fiéis da Igreja.»
No dia 17 de Setembro de 2001 os Cardeais da Cúria Romana, Ratzinger, Medina
Estevez e Castrillón Hoyos, divulgaram uma ‘notificação’ destinada a todas as
dioceses do mundo. Mais uma vez a misogenia e a falta de sentido evangélico,
para além de uma notável falta de sensibilidade, considerando a respectiva data
de emissão, se manifestou. O documento solicita aos bispos que encerrem os
cursos de formação de mulheres para o ministério diaconal que já existem em
vários países do mundo (mas não em Portugal), pois os mesmos poderão criar
‘expectativas a que faltam quaisquer fundamentos doutrinais firmes’ e poderão
‘gerar confusão pastoral.’
Contudo, nenhuma destas declarações tem carácter de dogma nem se reveste
de infalibilidade. Frei Herculano Alves, OFM, falando na XVII Semana Bíblica
Nacional, disse: «Tudo indica que a proibição da ordenação das mulheres não é
de direito divino. Primeiramente, porque o homem e a mulher são da mesma
natureza. Diante de Deus, não há homem e mulher. Pela exegese bíblica não
aparece que Cristo tenha negado às mulheres os mesmos direitos que aos
homens. Por isso, muitos teólogos afirmam que apenas factores de ordem
sociológica, psicológica e pastoral estão na raiz de tal proibição. Como as
condições culturais mudaram radicalmente, colocando a mulher num novo plano,
isso facilita a compreensão da nova situação dentro da Igreja e da sua
participação nos ministérios ordenados».
Um dos argumentos invocados, também pelo Ordinatio Sacerdotalis, é que Jesus
só escolheu homens como os primeiros 12 apóstolos. Há quem acrescente que
este tipo de raciocínio obrigaria a que os padres teriam de ser todos judeus,
pescadores e casados. Uma teóloga americana, Rosemary Radford Ruether, é
ainda mais afirmativa: «Se as mulheres não podem representar Cristo, como é
que Cristo pode representar as mulheres? Ou, dito de outra maneira, se as
mulheres não podem ser ordenadas, então também não podem ser baptizadas.
O que tudo isto significa é que a Igreja está a ser desafiada de uma nova forma
para tornar coerente a sua teologia, para pôr em sintonia a sua antropologia, a
sua cristologia, e a sua soteriologia [a doutrina da salvação através de Jesus
Cristo]. Se as mulheres são consideradas iguais em natureza e em graça, já não
há base para declarar que não podem representar Cristo sacramentalmente».
Em 2001, reuniram-se na Irlanda 370 mulheres e homens vindos de 26 países e
dos cinco continentes para realizarem a 1a Conferência Mundial sobre a
ordenação das mulheres para um sacerdócio renovado. Cerca de 15% eram
homens, entre os quais vários padres. Estavam presentes numerosas religiosas
e leigas que queriam servir o seu semelhante através do ministério presbiteral.
Num ambiente de grande alegria, muita oração e com o privilégio de poder ouvir
excelentes conferências, as e os participantes (entre as quais duas portuguesas,
Maria João Sande Lenos e eu própria) aprovaram uma série de resoluções, entre
as quais apelar ao diálogo com os bispos locais, com religiosas e religiosos,
sacerdotes e laicado sobre este tema, no contexto da reconstituição de um
discipulado autêntico. Por sua vez, o dominicano português Frei Bento
Domingues, que se tem debruçado sobre a temática em muitas ocasiões, deu
conta, num artigo, que a Congregação para a Doutrina da Fé, instituição do
Vaticano, interrogou, já em 1976, a Comissão Bíblica Pontifícia sobre a ordenação
das mulheres. Por doze contra cinco, a comissão adoptou a seguinte proposição:
«Como não há na Escritura indícios suficientes para dirimir a questão, a Igreja
poderia modificar a sua prática secular e admitir as mulheres à ordenação
sacerdotal.»
Tal como se passa na vida civil, as estruturas de poder masculino das Igrejas
têm medo das mulheres, dos nossos talentos, das nossas capacidades, do
nosso poder reprodutivo. No entanto, a história dos primeiros tempos da Igreja,
conforme já estudada por numerosos investigadores, indica que as mulheres
trabalhavam como evangelizadoras e pregavam. Nos primeiros séculos da
história da Igreja as mulheres presidiam às celebrações e eram ordenadas
diaconisas. Com o processo de institucionalização dos sacramentos, a partir do
século X, iniciou-se a caminhada da exclusão e da diferenciação, que implicava
inferioridade. Concluindo, será cada vez mais difícil à Igreja-instituição justificar a
exclusão das mulheres dos lugares de decisão, de serviço e de
responsabilidade, e o mal-estar e embaraço que essa persistente
marginalização causa à própria instituição já é bem visível.
Santa Teresa de Ávila (1515-82) tinha a seguinte esperança, ainda não realizada
400 anos depois de formulada: «Vejo os tempos em que não haverá razões para
excluir ânimos virtuosos e fortes pelo simples facto de serem mulheres». É que
os tempos mudaram de facto, e vão continuar a mudar. Não só física e
materialmente, mas relacionalmente.
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