Não ter medo do povo de Deus
Ana Vicente e Maria João Sande Lemos
Texto publicado no jornal Público de 31.08.2008.
As pessoas não encontram no discurso e na forma de organização da instituição Igreja um espaço de acolhimento
Lemos na imprensa que os bispos portugueses frequentaram umas jornadas de formação subordinadas ao tema Critérios e modos de organização, gestão e liderança numa Igreja-Comunhão. Ficamos muito satisfeitas. Porque já em princípios de 1996 nos deslocamos a Coimbra, juntamente com Emília Nadal, para apresentarmos ao então presidente da Conferência Episcopal, o bispo de Coimbra João Alves, o estudo sobre violência contra as mulheres realizado pelo Centro de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa, encomendado pela Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres. As conclusões eram preocupantes. A intenção da visita era transmitir que, em nosso entender, a violência doméstica necessitava de ser encarada a nível pastoral. Informamos que poderíamos indicar peritos de várias áreas para explicar aos senhores bispos os contornos deste tipo de crime. O bispo atendeu-nos com a maior cordialidade, mas o resultado foi nulo.
Posteriormente, inúmeras foram as vezes em que o Movimento que integramos procurou o diálogo com os nossos bispos. Fomos recebidas por vários que, em privado, até parecem concordar com todas ou algumas das nossas propostas - uma Igreja fraterna, onde fosse abolido o fosso entre leigos e clero com, a título de exemplo, a consequente participação dos crentes na escolha dos seus bispos; uma Igreja com uma nova atitude face às mulheres, também elas chamadas à santidade e salvação, mas excluídas dos ministérios ordenados; uma Igreja que não imponha o celibato obrigatório aos sacerdotes; uma Igreja que valorize a sexualidade, abandonando a ingerência na consciência dos fiéis, mas condenando, obviamente, o abuso sexual; uma Igreja empenhada na globalização dos direitos humanos.
Será que no tal curso se abordaram questões como não ter medo de opiniões discordantes das suas, estar aberto aos sinais dos tempos, partilhar o poder, incluir e não excluir o/a próximo/a. Aliás, recentemente, os bispos portugueses ouviram da boca do Papa Bento XVI a recomendação de que deveria haver em Portugal uma maior participação de todos os fiéis no testemunho do Evangelho.
Por outro lado, lemos nos jornais que na diocese de Lisboa desde 2001 houve uma perda de entre 70 a 100 mil praticantes nas missas dominicais. No entanto, outros estudos indicam que a religião é um factor primordial na vida de uma larga maioria da população. Ou seja, parece que as pessoas, embora querendo viver a dimensão religiosa nas suas vidas, não encontram no discurso e na forma de organização da instituição Igreja um espaço de acolhimento onde essa dimensão religiosa possa fruir. Tendo em vista a renovação do modo de estar e actuar, já vários especialistas, entre os quais frei Bento Domingues, sugeriram que a nível diocesano se realizassem sínodos locais, abertos, que permitam uma real participação de pessoas interessadas e não só daquelas que frequentam regularmente as paróquias.
Entretanto vai realizar-se em Outubro próximo, no Vaticano, um sínodo acerca da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, tendo havido um apelo à reflexão. Um grupo de católicos portugueses endereçou uma carta ao actual presidente da Conferência Episcopal, afirmando, entre outros considerandos, não ser correcto falar de crise de vocações sacerdotais, se se entender o sacerdócio como um ministério ao serviço dos irmãos e das irmãs. São muitos os homens e mulheres, casados, solteiros, ou viúvos, são muitos os padres casados (só em Portugal, cerca de 300), são muitas as religiosas consagradas (em finais de 2006 havia 5717) que poderiam estar disponíveis para esse ministério. Os fiéis desejam ter acesso à Eucaristia e uma grande parte destes considera que muito mais importante do que o estado civil ou o sexo do celebrante é o seu testemunho como seguidor de Jesus. Esse acesso não pode nem deve ser dificultado, restringido, condicionado com a insistência num modelo de sacerdócio de templo, masculino, clerical, celibatário, já completamente ultrapassado. O texto completo pode ser visto em www.we-are-church.org/pt/ e está aberto à assinatura de quem o quiser fazer.
A Igreja, entendida como comunidade de crentes que procura ser fiel à mensagem de Jesus, tem de ser relevante na realidade contemporânea.
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