A instituição Igreja tem um problema estrutural e cultural
Carta de Ana Vicente, Membro do movimento Internacional Nós Somos Igreja e investigadora, publicada no jornal Público.
Há muito que se sabia que estas violências existiam, mas quem procurava levantar a voz era, quantas vezes, calado.
A opinião pública em geral e a comunidade dos baptizados em particular, ou seja, a Igreja, de acordo com as orientações do Concílio Vaticano II, está/estamos em estado de choque com as revelações acerca dos imensos sofrimentos infligidos a crianças e adolescentes, de ambos os sexos, por membros do clero católico (e por algumas freiras) ao longo destas últimas décadas em muitos países do mundo (provavelmente em todos) e também em Portugal. Logo surgem vozes dizendo que tal também acontece noutros meios e em especial no âmbito da família — é verdade, mas a sabedoria popular afirma que um mal não desculpa outro e procurar minimizar a gravidade dos abusos com este tipo de argumentação é, em si, já um abuso.
Há muito que se sabia que estas violências existiam, mas quem procurava levantar a voz era, quantas vezes, calado. Em 2005 conheci uma norte-americana, dos seus 40 anos, que tinha sido abusada sexualmente pelo senhor prior, aos 7 anos de idade. Amigo da família, ela não se atreveu a contar aos pais o que se tinha passado. Salvou-a mudar-se para outra zona dos EUA, enquanto as crianças que continuaram na paróquia continuaram a viver num estado de extrema vulnerabilidade. Quando jovem mulher fez queixa à diocese, que se comprometeu a pagar-lhe uma terapia, desde que ela assinasse um documento a afirmar que jamais falaria do caso. Foi preciso passarem uns anos para que ela percebesse a violência do que lhe tinha sido exigido e rompeu o silêncio, sendo hoje uma dirigente de uma das principais associações de vítimas de abuso clerical.
A ocorrência destes abusos força-nos a procurar reflectir o porquê e qual a forma de garantir que "nunca mais". E também de fugir de respostas generalistas, do tipo: o problema é haver tantos padres homossexuais numa instituição que condena a homossexualidade (não confundir homossexualidade com pedofilia). Ou o melhor é acabar com o celibato imposto aos padres na Igreja ocidental desde o século XI, mas não imposto ao clero anglicano que queira agora integrar a Igreja Católica.
O cenário é, creio, bastante mais complexo (embora essas questões sejam muito sérias) e tem a ver com a forma como a instituição Igreja se tem vindo a organizar. O problema é estrutural e cultural e realça o facto de imperar na instituição um clericalismo e um autoritarismo que nada tem a ver com o espírito dos Evangelhos. Aí, o fundador do cristianismo combate activamente o clericalismo e declara mesmo que ele é o único sacerdote. Mas o ser humano tem tendência para estabelecer distinções entre as pessoas e rapidamente se montaram estruturas de poder e de hierarquia que colocaram sobre pedestais pessoas do sexo masculino, escolhidas para uma missão vista como sobrenatural. Se esta foi e continua a ser a atitude face aos padres, os bispos então viam-se e eram vistos como seres muito especiais, acima de qualquer suspeita, porque não seriam bem bem humanos. Com agendas tão sobrecarregados como as dos políticos, poucos descem ao povoado para contactar com a vida quotidiana da vasta maioria da população. Do alto da sua autoridade, estes padres e bispos, a quem é imposto um celibato incompatível com a grande maioria do ser e do estar dos seres humanos, assumiram um poder sobre os comportamentos e sobre as consciências dos fiéis que, repito, nada deve ao espírito evangélico. Evidentemente sempre houve padres e freiras que reflectem santidade nas suas formas de vida, mas o que nos preocupa é a extensão de um fenómeno de abuso de autoridade por parte de pessoas que deveriam ser exemplos morais em comportamento e em misericórdia.
A obsessão pelo comportamento sexual dos fiéis, traduzida num sem-fim de instruções, proibições, admoestações, emanadas de um clero exclusivamente masculino e celibatário, resultou, finalmente, em que a grande maioria dos fiéis fizessem orelhas moucas. As relações pré-matrimoniais são largamente praticadas e aceites pelos católicos praticantes, como o são o uso de métodos contraceptivos ditos "artificiais", que mais não são do que a manifestação de uma atitude responsável face à parentalidade, por que obviamente todos os métodos "iludem a natureza", como concluiu a maioria dos membros da comissão que aconselhou Paulo VI sobre a necessidade de uma nova atitude face à sexualidade (mas que lamentavelmente não foi atendida com as consequências que se conhecem — uma imensa perda de credibilidade do Vaticano).
O teólogo inglês Timothy Radcliffe, que já foi superior dos dominicanos e esteve em Portugal, declarou que "esta terrível crise dos abusos sexuais está profundamente ligada ao facto de que o poder pode corromper as relações humanas". E apela para que a Igreja se transforme num espaço onde seja possível encontrar Deus e os/as outros/as em clima de amizade e de acolhimento, em que seja reconhecida a igual dignidade de todos os baptizados, em particular os mais frágeis e vulneráveis.
E, evidentemente, uma estrutura que teme as capacidades e os carismas de metade (ou a maioria) dos seus crentes, as mulheres, excluindo-nos do serviço e do ministério, não pode estar sã. Quem está interessado nestas mudanças urgentes? Quem terá coragem para as promover? E quem as teme? E quando é que em Portugal vão emergir as pessoas de ambos os sexos que foram vítimas de abusos, sexuais, físicos, psicológicos, por parte de padres ou freiras? Para que "nunca mais" tais violências possam ser repetidas.
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